Parmalat em marcha a ré na globalização

A Parmalat, multinacional italiana na área de laticínios, estruturou-se em uma rede mundial, abrangendo 30 países. No Brasil, onde cresceu através de aquisições de empresas brasileiras, possuía 33 unidades de produção e distribuição dispersas por todo o território nacional, das quais 23, no setor industrial, foram compradas entre 1991 e 2001.

Em dezembro de 2003, estourou enorme escândalo financeiro, vindo a público, primeiro, o desvio de pesadas somas de dinheiro da companhia para a conta particular de seu principal executivo e, em seguida, o elevado grau de endividamento do grupo. Em meio à divergência sobre o montante do rombo e do endividamento e de especulações sobre balanços maquiados no Brasil, vinculados à remessa de lucros para o Exterior, a Parmalat italiana, juntamente com suas unidades nos Estados Unidos e no Brasil, entrou em concordata, prognosticando-se o mesmo fim para sua filial mexicana.

A crise da Parmalat, no entanto, tem outros componentes que merecem ser destacados. Em nosso entender, ela
deveria ser associada fortemente a escolhas equivocadas quanto à estratégia recente de crescimento adotada pelos administradores, especificamente quanto à velocidade empreendida no processo de expansão transfronteiras. Veja-se o caso do Brasil, onde a multinacional adquiriu, nos anos 90, em média, duas empresas ao ano, espalhadas do norte ao sul do País, crescendo, inclusive, para fora de seu corebusiness tradicional — laticínios. Tais opções significam concentração de pesados investimentos no tempo e complexidade administrativa associada a altos custos de logística.

A quebra da Parmalat poderia ser relacionada, também e de forma importante, ao padrão de competição instalado nos seus mercados finais, baseado na diferenciação exaustiva de produto, objetivando a “descomoditização” da produção primária. Esse é um processo extremamente exigente em inversões e implica elevados gastos, cujo melhor exemplo são os feitos em propaganda.

Quais as conseqüências da concordata da empresa no Brasil? A aquisição das empresas no País inseriu os produtores nacionais na rede internacional da Parmalat, tornando-os solidários, para o bem ou para o mal, com os (des)caminhos da empresa como um todo. É por isso que a concordata da empresa na Itália afeta o produtor de leite em Carazinho (RS). E, ainda mais, na medida em que a Parmalat se expandiu geograficamente, através da aquisição de empresas em vários estados brasileiros, sua crise repercute nos produtores do Rio Grande do Sul, de Goiás, do Rio de Janeiro, do Paraná e de Roraima. Ou seja, a concordata na Itália, pelas características da estruturação da empresa no Brasil, assume proporções socioeconômicas tais que transforma um problema corporativo, privado, em questão de Estado. É a globalização!

A concordata da empresa conduziu imediatamente a uma desorganização no mercado de laticínios, nas áreas de compra e venda. É a crise em setores com produção concentrada! Tudo indica que a reorganização dos mercados se processará através da compra, ou arrendamento, das unidades industriais por cooperativas e empresas de produtores de leite regionais e nacionais, levando à (re)nacionalização do patrimônio da empresa, à volta aos mercados regionais e à desconcentração na área industrial de derivados de leite “quase-commodities”. Nesse novo contexto, em que desaparece de cena uma das empresas-líderes na segmentação dos mercados lácteos no Brasil, a diminuição da pressão sobre os demais participantes poderá levar a um arrefecimento nesse processo de diferenciação e, por outro lado, a uma maior concentração da produção nos segmentos do mercado de produtos de maior valor agregado.

Parmalat em marcha a ré na globalização

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