Os limites do crescimento econômico embasado no mercado interno

Por razões já amplamente discutidas, no terceiro trimestre de 2007 a economia norte-americana foi envolvida por crise que desacelerou sua atividade produtiva e causou o abalo das finanças internacionais. Com intensidade e duração ainda desconhecidas, o processo tem potencial de pôr em xeque o crescimento das demais economias do mundo.

Contudo, no Brasil, crê-se que sua economia não perderá muito do dinamismo de 4,4% anuais médios verificado entre 2004 e 2007. É claro, são mais resilientes à desaceleração generalizada dos mercados externos aquelas economias cujos crescimentos se baseiam na expansão de seus mercados internos. Esse é o caso da economia brasileira na atualidade, a qual, além disso, dispõe de situação confortável também no referente às suas contas públicas e externa.

É inquestionável, mas mercados internos expansivos, se bem que sejam condição necessária da resiliência referida, não totalizam as condições suficientes. Estas incluem requisitos adicionais. Dentre eles, o de serem capazes de garantir os meios materiais necessários à expansão produtiva. É verdade que o que não pode ser produzido internamente pode ser importado, e, para financiar a importação, pode-se fazer uso das reservas externas de que o País disponha. Mas esse recurso é, necessariamente, limitado no tempo. De forma alternativa, pode-se utilizar o aporte de capitais externos e saldos em transações correntes (STCs.).

No caso brasileiro, o aporte de recursos externos tem sido mais do que suficiente para sustentar o dinamismo da economia brasileira dos últimos anos. Também em razão dele, as cotações da moeda e o volume das reservas externas do País elevaram-se para níveis reais inusitados (Tabela). Porém tamanha entrada de capitais forâneos só foi possível devido às excepcionais liquidez internacional e STCs vigentes nos últimos anos. Infelizmente, para o futuro, ambos tendem à redução.

A liquidez internacional sofrerá contração em razão das dificuldades que, já hoje, envolvem a economia norte-americana e as finanças internacionais. Além disso, mantido o dinamismo da economia brasileira, as evidências disponíveis são de que o País voltará a produzir volumosos déficits externos correntes em prazo não muito distante, mesmo que preservada a atual taxa de crescimento do comércio internacional (Tabela). Nesse caso, o mesmo dinamismo conjugar-se-ia à volta da elevada e desestabilizadora vulnerabilidade externa, que condenaria o primeiro.

Mas é mais provável que o crescimento econômico seja contido antes que os déficits externos atinjam níveis tão elevados. Constatada a tendência de déficits externos crescentes, seguir-se-iam desvalorização cambial, pressões inflacionárias e, dado o regime de metas de inflação vigente no Brasil, elevação dos juros internos, contenção do crescimento econômico e adequação das contas externas. A variável de ajuste seria o crescimento econômico.

A economia brasileira dispõe do fôlego que lhe propiciam suas volumosas reservas externas atuais. Depois que parcela significativa delas tiver sido utilizada, o crescimento econômico será contido, não interessando quão dinâmico seja atualmente seu mercado interno.

Os limites do crescimento econômico embasado no mercado interno

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