Os impasses da travessia chinesa em tempo de crise externa

A economia internacional convive com uma crise sem precedentes nas economias avançadas, no período do pós-guerra. Após a recessão mundial de 2009, o desastre nuclear de Fukushima no Japão, a crise do emprego e a ameaça de suspensão de pagamentos dos títulos nos Estados Unidos e a crise do endividamento da Europa têm contribuído, decisivamente, para a ameaça de um segundo mergulho da economia mundial. Todavia a deterioração do quadro econômico global não se consolidou, devido ao comportamento das economias emergentes e, particularmente, ao desempenho da economia chinesa, cujas autoridades lançaram, no biênio 2009-10, um plano de estímulo da ordem de US$ 2,7 trilhões.

Os resultados alcançados pelo governo de Pequim implicaram taxas elevadas de crescimento econômico e transformaram o País no maior consumidor mundial de energia, de acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE). Segundo o jornal New York Times, em 2009, a China consumiu 2,252 bilhões de toneladas equivalentes de petróleo, superando os Estados Unidos, que consumiram 2,170 bilhões de toneladas equivalentes de petróleo.

O excelente desempenho da economia chinesa foi acompanhado de um superávit comercial de US$ 183 bilhões, de um superávit em conta corrente de US$ 306,2 bilhões e de um acúmulo de US$ 1,16 trilhão em títulos da dívida do tesouro norte-americano ao final de 2010.

No final de dezembro do exercício passado, o Banco do Povo identificou duas restrições na gestão da economia — alta de preços e excesso de liquidez — e elevou a taxa de juros, porque era necessário conter o processo inflacionário e buscar a meta oficial de 4,0%. A prioridade no combate à inflação fica evidente à medida que o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) avançou 3,3% (2010) e deve fechar em 5,5% em 2011, de acordo com o FMI.

Embora o ritmo de crescimento se mantenha em taxas elevadas, a economia chinesa convive com um processo de desaceleração desde o início da corrente década. O PIB cresceu 10,3% em 2010 e 9,5% em 2011 e deve registrar um incremento de 9,0% em 2012, conforme o Panorama Econômico Mundial do FMI. No final de maio, Pier Carlo Padoan, Economista- Chefe da Organização Para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em entrevista ao jornal Valor, alertou que a desaceleração da economia chinesa poderia ser ainda maior, embora tenha descartado a hipótese de uma aterrissagem forçada, porque a articulação entre o setor financeiro e a economia real não é tão forte como em outras economias. Essa opinião não é acompanhada por Michael Pettis, Professor da Universidade de Pequim, que acredita que a desaceleração se aprofundará para 3,0% após 2013, por causa do aumento do consumo em detrimento da expansão do investimento.

A par da desaceleração da economia e com o avanço da crise externa, a economia chinesa passou a conviver, ao longo de 2011, com taxas de inflação no patamar de 6,5% e com forte alta nos preços dos alimentos em meados do ano, exigindo novas elevações de taxas de juros e enxugamento da liquidez por parte das autoridades monetárias. Em setembro, a inflação recuou para 6,1%, e, em outubro, houve novo recuo, dessa vez para 5,5%.

Em setembro, após dois meses consecutivos, o impacto da crise externa — e, particularmente, o relacionamento comercial com a União Europeia — evidenciou uma desaceleração do superávit comercial do País. Na ocasião, o governo de Pequim, aparentemente, fez-se valer da redução nos preços das commodities para adquirir volumes maiores de metais — minério de ferro e cobre —, contribuindo, dessa forma, para que os preços das matérias-primas não viessem a encontrar um novo piso no mercado internacional.

Em meados de outubro, a comunidade internacional foi surpreendida com a intervenção da Central Huijin Investment do Fundo Soberano, que adquiriu ações dos bancos Agrícola, Industrial e Comercial, da Construção, e do próprio Banco da China, os quatro maiores intermediários financeiros do País. A volatilidade das bolsas decorrente da debilidade das ações daqueles bancos e do aumento dos créditos podres, produto da contenção do crédito posto em prática anteriormente para combater a inflação, exigiu a nova intervenção das autoridades econômicas.

Logo a seguir, o governo de Wen Jiabao lançou um novo pacote, dessa vez um plano para socorrer com crédito o segmento das pequenas empresas, que se ressentiu com a queda das exportações e que se encontrava sob ameaça de quebra face à nova conjuntura vigente na China.

Não bastassem as mudanças em curso na conjuntura econômica chinesa, as próprias autoridades locais passaram a conviver com o alerta do FMI quanto à possibilidade de o País estar criando uma bolha imobiliária, devido às limitações das opções da poupança. Os analistas econômicos vêm enfatizando, também, o avanço das dívidas dos governos locais (que vencem no próximo biênio 2012-13), o que exigiu que as autoridades centrais autorizassem os governos locais — as províncias de Zhejiang e Guangdong e as cidades de Xangai e Shenzen — a emitirem títulos para evitar um choque de crédito e socorrer a demanda doméstica.

Recentemente, o FMI voltou a enfatizar a vulnerabilidade do sistema bancário da China após a realização de teste de estresse nos 17 maiores bancos do País. Se houver combinação de queda no valor dos ativos, alteração na cotação do yuan e ajuste no mercado imobiliário, o sistema financeiro local poderá ser duramente atingido, de acordo com os estudos realizados, conjuntamente, pelo FMI e Banco Mundial.

E, assim, as autoridades chinesas devem monitorar a desaceleração da economia em 2012, com a atenção voltada para a estabilidade. Será necessário prosseguir o esforço em direção à meta de inflação, com atenção redobrada no impacto da crise europeia sobre as exportações locais. Ao mesmo tempo, é fundamental conter a ameaça da bolha imobiliária, prevenir a possibilidade de uma crise bancária, viabilizar as atividades dos governos locais e preparar-se para os desafios da flexibilização da taxa de câmbio e da priorização do mercado interno.

Os impasses da travessia chinesa em tempo de crise externa

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