Os impactos da atual recessão econômica na mobilidade de renda dos domicílios gaúchos

Deteriorações no nível de emprego e no salário real das famílias são constatações amplamente observadas em períodos de recessão econômica. No entanto, os efeitos distributivos que decorrem desse processo, além de difíceis de aferir,
não obedecem a um padrão. Quais classes econômicas são mais afetadas pela atual crise? Como se dá a dinâmica de transição dos domicílios gaúchos entre distintas faixas de poder aquisitivo?
Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que a renda real média dos trabalhadores gaúchos recuou 2,5% em 2015. Combinada com o aumento da taxa de desocupação, que já atinge 6,5%, a atual conjuntura impôs — e permanece impondo — uma mudança significativa na trajetória de crescimento do poder aquisitivo das famílias. Esse efeito absoluto, entretanto, não revela como diferentes grupos de renda são afetados pela crise, ou seja, quais são os impactos relativos advindos da atual recessão.
Para analisar esse segundo efeito, os domicílios gaúchos foram classificados em três classes econômicas (baixa, média
e alta), conforme as definições da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), da Presidência da República. Essa estratificação foi originalmente definida pelo Banco Mundial e se apoia no conceito de vulnerabilidade econômica, medida
pela probabilidade de um dado domicílio permanecer na condição de pobreza ou retornar a ela nos anos seguintes. Essas faixas de renda, assim como a renda domiciliar extraída dos microdados da PNAD Contínua, foram atualizadas pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) da Região Metropolitana de Porto Alegre até novembro de 2015, mês no qual estão valoradas as últimas informações sobre a renda, disponibilizadas pela referida pesquisa do IBGE.
Os resultados revelam que o 1.º trimestre de 2015 marcou um ponto de inflexão na tendência de transição de domicílios
da classe baixa para a classe média (gráfico). No final de 2015, a proporção de domicílios gaúchos pertencentes à classe baixa (24,7%) já equivalia praticamente ao nível observado no 2.o trimestre de 2013 (24,8%), um aumento de 15,1% em relação ao patamar mínimo, registrado no 4.o trimestre de 2014. Os dados revelam, ainda, que nove em cada 10 domicílios que entraram para a classe baixa em 2015 vieram da classe média. Portanto, a recessão tem atingido, com grande intensidade, domicílios de renda mediana, muitos dos quais provavelmente haviam saído da condição de pobreza no período anterior, em que o crescimento da renda real do trabalho cumpriu importante papel na redução das desigualdades.
Além desse movimento migratório às faixas de renda inferiores, há também um segundo fator que desempenhou um papel crucial na mobilidade de classes em 2015: a maior rigidez de transição para faixas de renda mais elevadas. Um domicílio aleatoriamente extraído da classe média ao final de 2014 teve três vezes mais chance de transitar para a classe baixa (19,6%) do que para a classe alta (6,6%) ao longo de 2015. Em comparação com os anos anteriores, constata-se, também, que houve um maior engessamento de domicílios pertencentes à classe baixa, que encontraram, na crise, uma barreira quase intransponível para ascender economicamente.
Há um detalhe metodológico que deve ser ressaltado. A PNAD Contínua fornece dados sobre a renda habitual de
todos os trabalhos, mas não de outros fatores de produção, como o capital. Domicílios classificados como de classe alta
tendem a ter maior participação de outras rendas, como alugueis e rendimento de ativos financeiros, do que seus pares
mais pobres. Logo, os efeitos da crise sobre a desigualdade de renda tendem a ser ainda maiores.
De forma geral, as evidências desse estudo sinalizam o alto custo social que a atual recessão tem imposto, uma vez que seus efeitos atingem, em maior grau, justamente os domicílios gaúchos em condição de maior vulnerabilidade. No curto prazo, os resultados reforçam a necessidade premente de a economia brasileira sair da crise e voltar a crescer o mais rapidamente possível. No médio e no longo prazo, atenta-se para a importância de o Governo exercer sua função econômica estabilizadora, de forma a evitar que recessões intensas e duradouras, como a atual, se repitam.

Compartilhe