O superciclo dos preços das commodities desacelerou ou está diante do fim?

A datar de meados de 2003, os preços internacionais das commodities iniciaram um percurso persistente de alta, um fenômeno singular em termos de amplitude. A crise financeira de 2008 não significou a interrupção deste movimento, uma vez que a recuperação das perdas teve início logo no ano subsequente. Os principais grupos de commodities — desconsiderando-se os combustíveis — alcançaram picos históricos no ano de 2011, com destaque para metais e alimentos. O petróleo, por sua vez, atingiu a maior cotação do período pós-crise em março de 2012, em meio à Primavera Árabe. O seu preço atual, porém, ainda se encontra aquém do recorde de julho de 2008.

Entre os possíveis eventos relacionados a este superciclo, além do tão enfatizado efeito-China, pode-se citar o aumento de custos de produção, como, por exemplo, o encarecimento da extração de petróleo em águas profundas. A elevação desse combustível gera um efeito em cadeia, principalmente para as commodities agrícolas, na forma de encarecimento
dos transportes, dos fertilizantes e, ainda, a elevação do custo implícito para a produção de alimentos, ao considerar-se a produção alternativa de biocombustíveis.

Outros fatores, como a política monetária de juros baixos nos Estados Unidos, a desvalorização do dólar e questões geopolíticas, também são apontados como causas para esse ciclo. Há, ainda, a presença dos investimentos financeiros responsáveis pela ampliação da volatilidade, a qual é intrínseca aos mercados de produtos primários.

Em 2012, os preços dos produtos básicos — ainda desconsiderando-se os combustíveis — cresceram 4,5%, sendo possível visualizar, no ano seguinte, uma direção descendente para esse grupo e também para os metais e alimentos. Nos dois primeiros meses de 2014, observa-se a elevação na cotação dos alimentos, tomando-se como referência dezembro de 2013, em especial do açúcar e do milho — em 12 meses, no entanto, esses produtos ainda acumulam baixas. As principais razões apontadas para a elevação recente dos preços estão relacionadas ao déficit hídrico no Brasil e aos conflitos geopolíticos envolvendo a Ucrânia, país de solo fértil que ocupa as primeiras posições entre os maiores exportadores mundiais de trigo e milho, sendo considerado o “celeiro” dos países europeus. A valorização dos combustíveis no início do ano ocorreu em meio a tensões entre a Rússia e o Ocidente. No grupo de bebidas, o café tem alta expressiva e recupera as perdas ocorridas desde 2011.

Os principais impactos desse movimento de 2014, apesar de aparentemente temporários, podem ser observados na inflação e nas contas externas. A combinação do real mais fraco desde o último quadrimestre de 2011 com a elevação
dos preços dos cereais no início de 2014 — correlação incomum para a maior parte do período — exerce pressão altista
na inflação doméstica no início do ano. Por sua vez, os principais determinantes para o resultado da balança comercial
nos últimos anos estão relacionados com os ganhos nos termos de troca e com a administração da balança de combustíveis.

Apesar da valorização de alguns grupos de commodities no primeiro bimestre de 2014, as previsões do FMI — que, em geral, são alvo de constantes revisões — para os preços dos principais grupos de commodities até 2019 sinalizam uma retração não brusca, o que traria paulatinamente os patamares de 2010 de volta para os preços. Caso os prognósticos
dessa instituição se confirmem, apesar da baixa, os preços ainda se localizariam em um degrau muito acima do que vigorava em 2003.

Dessa forma, as pressões inflacionárias com origem nas matérias-primas seriam arrefecidas, mas, por outro lado, as exportações dos produtos básicos, que cresceram em valor nos últimos 10 anos, devido, principalmente, ao efeito-preço, passariam a depender mais de outros fatores, como, por exemplo, a recuperação da economia mundial. Ademais, o debate sobre o desenvolvimento com recursos naturais não é inoportuno, haja vista os patamares ainda elevados alcançados pelos preços das commodities e os termos de troca favoráveis aos países exportadores de produtos primários. Concernente ao questionamento que intitula este texto, a despeito das previsões, é muito difícil traçar um comportamento futuro, a julgar pelos vários determinantes desses preços.

O superciclo dos preços das commodities desacelerou ou está diante do fim

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