O significado da conquista do grau de investimento

No dia 30 de abril de 2008, o Brasil recebeu a certificação de grau de investimento pela agência de classificação de risco Standard & Poor´s (S&P), que atualizou o grau do País de BB+ para BBB-, com perspectiva estável, significando que o País é opção segura em termos de risco de crédito. Outras agências, especialmente a Mood´s e Fitch, ainda classificam o Brasil como grau especulativo, mas considera-se que é apenas questão de tempo seguirem a S&P, já que as classificações são fortemente correlacionadas. O anúncio surpreendeu o mercado, que dava como certa a certificação, mas somente para 2009, em razão da turbulência nos mercados financeiros internacionais de 2007/08. Tão logo se deu o anúncio, os mercados reagiram, a taxa de câmbio vem caindo, enquanto o Ibovespa bate seguidos recordes.

O relatório da S&P destacou a maturidade institucional do Brasil, evidenciada pela melhora fiscal, pela redução da dívida externa e pelo crescimento. Foram considerados pontos fortes da perspectiva do País a manutenção do regime de câmbio flutuante e do regime de metas de inflação. O relatório também destacou a independência na prática operacional do Banco Central. Já os pontos fracos estão associados à elevada relação dívida líquida/PIB do Governo — muito acima da dos países com a mesma classificação do Brasil —, ao crescimento acelerado dos gastos públicos correntes e às barreiras estruturais ao investimento, na forma de altas taxas de juros e de pouca participação do setor privado nos investimentos em infra-estrutura. Não há um otimismo quanto à aprovação de reformas estruturais, porém a evolução de um conjunto de medidas de menor impacto tem sido considerada satisfatória

Quanto à taxa de juros, os efeitos dar-se-ão mais no médio prazo, pois, no curto prazo, a sua trajetória ainda refletirá a política monetária apertada. Assim, a curva de juros deve ficar menos inclinada diante do menor prêmio de risco embutido nos prazos mais longos, fazendo com que, ao longo do tempo, as taxas de juros de curto prazo comecem a cair. Isso já está impactando os mercados de financiamento de prazo mais longo. Financiamentos habitacionais e financiamentos de prazos longuíssimos para bens duráveis, que focam especialmente as taxas de longo prazo, já vislumbravam uma curva de juros com taxas longas em queda coexistindo com taxas curtas ainda extremamente elevadas, tornando bastante rentáveis essas operações. Isso garante uma boa perspectiva, em especial para os mercados imobiliário e de automóveis.

A curva de juros menos inclinada terá também efeitos na taxa de câmbio. Com a perspectiva de alta nos fluxos financeiros e nos investimentos diretos, com os preços das commodities exportadas pelo Brasil em alta e a fraqueza global do dólar, não será surpresa se a taxa de câmbio cair abaixo de R$ 1,50 nos próximos meses, com a tolerância do Banco Central, que não hesitará em utilizar esse instrumento para enfrentar uma inflação que se mostra crescente.

A evidência relativa aos países que receberam o grau de investimento nos últimos anos mostra que os mercados antecipam a certificação, de tal maneira que os preços dos ativos domésticos começam a subir em torno de um ano antes do anúncio. Em alguns casos, os ativos esgotam sua valorização antes mesmo do anúncio, como no caso do México. A antecipação, porém, não tem como ser plena, pelas restrições estatutárias de aplicações em países não certificados e pelo grau de investimento por parte de vários fundos estrangeiros. Esses fluxos é que devem fazer diferença, ainda que, para virem, tenham que esperar por certificações adicionais.

O significado da conquista do grau de investimento

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