O Rio Grande do Sul corre o risco de enfrentar uma crise hídrica?

O verão de 2014-15 vem sendo marcado por uma das piores crises hídricas já registradas no País, que tem colocado em evidência a Região Sudeste, em especial o Estado de São Paulo, e que resulta da soma de inúmeros fatores. Por um lado, o volume de precipitação vem diminuindo há alguns anos, no verão — período no qual são esperados os maiores acumulados de chuva na Região. Segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia, em 2014 esse déficit atingiu cerca de 30%. Por outro, o mau uso da água e a falta de planejamento e gestão amplificam os efeitos negativos dessa crise, os quais afetam diretamente mais de 80 milhões de pessoas, enquanto as consequências indiretas se alastram por todo o País.

No RS, o verão tem sido bastante chuvoso, com volumes de precipitação acima da média histórica (Normal Climatológica 1961-90) em todas as regiões, chegando a mais do que o dobro do esperado em alguns municípios. Apesar disso, as estiagens são um fenômeno bastante conhecido, pois têm sido frequentes nos últimos anos, causando inúmeros prejuízos econômicos, principalmente nas atividades relacionadas à agropecuária. Embora esse impacto seja mais visível nas áreas rurais, as urbanas também arcam com os prejuízos decorrentes das estiagens, uma vez que a maioria da população reside nesses locais e, portanto, a demanda de água é bastante expressiva.

O regime de precipitação no Estado vem sofrendo alterações nas últimas décadas, se comparado ao comportamento histórico. Se antes as chuvas eram distribuídas de maneira mais ou menos homogênea ao longo do ano — e, por isso, o clima do RS é considerado do tipo fundamental Cf, ou temperado úmido, segundo a classificação climática de Koeppen —, cada vez mais ocorrem eventos de grandes volumes de precipitação, concentrados em um curto espaço de tempo, intercalados com períodos de estiagem (mais ou menos prolongados). No verão, devido às altas temperaturas e, consequentemente, maiores taxas de evaporação, os efeitos das estiagens são mais intensos. Apesar dessa mudança na distribuição das chuvas, o volume acumulado no ano não tem sofrido alterações importantes. Portanto, a falta de precipitação não se coloca como um provável fator desencadeador de uma crise hídrica no Estado.

Quanto à disponibilidade hídrica, o RS possui uma das maiores do País, contando com uma grande densidade de cursos d’água, um vasto sistema de lagoas na planície costeira e grandes reservatórios de água subterrânea, como o Aquífero Guarani, um dos mais importantes do mundo, que possui mais de 18% do seu volume em território gaúcho.

Sendo assim, embora exista desequilíbrio entre disponibilidade e demanda em algumas áreas, os fatores que podem deflagrar uma crise hídrica no Estado são mais de ordem qualitativa do que quantitativa, relacionando-se à má qualidade das águas (disponíveis para a coleta) e à falta de planejamento e gestão em áreas estratégicas.

A falta de saneamento adequado é um dos principais problemas que resultam na má qualidade das águas. De acordo com o Ministério das Cidades, apenas 31,2% do esgoto são coletados e 12,6% são tratados no RS, enquanto, no Brasil, esses percentuais alcançam 54,2% e 39% respectivamente. Além disso, três dos 10 rios mais poluídos do País estão localizados no Estado — Sinos, Gravataí e Caí —, os quais abastecem mais de 1,5 milhão de pessoas. Os Municípios de Canoas e Gravataí figuram entre os 20 piores do País no ranking do saneamento (que analisa a situação dos 100 municípios mais populosos do País).

O uso indiscriminado de agrotóxicos e fertilizantes nas lavouras do Estado — uma média anual de 8,3 l/hab., quase o dobro da média nacional, que é de 4,5 l/hab. — e o despejo inadequado de rejeitos industriais também influenciam na perda de qualidade das águas.

Nas cidades, contribuem para um desequilíbrio no balanço hídrico, por um lado, o aumento da demanda — que deverá ser de cerca de 6% até 2025 — e, por outro, a diminuição da disponibilidade, seja por perda de qualidade, seja de quantidade. Nas áreas rurais, esse desequilíbrio é ainda maior e está relacionado, principalmente, à retirada de água para irrigação de mais de 150.000 hectares de lavouras, o que consome 78% do total da água utilizada no Estado.

Devido a esse desequilíbrio, a Agência Nacional das Águas (ANA) considera que o RS possui uma das situações mais críticas de balanço hídrico, junto com o semiárido nordestino, e, por isso, está entre as áreas prioritárias de ação do Programa de Desenvolvimento do Setor Água (Interáguas), que visa ao planejamento e à gestão dos recursos hídricos em áreas críticas.

Diante de tal cenário, pode-se dizer que o Estado já sofre uma crise crônica, causada por falta de planejamento e má gestão dos recursos hídricos, e que resulta na baixa qualidade da água e no desequilíbrio entre disponibilidade e demanda. É vital, portanto, que sejam implementados planos eficientes de adequação, para evitar que uma crise crônica se transforme em aguda, como já ocorre no Sudeste do País, com consequências locais que poderão ser ainda mais graves e difíceis de contornar.

Carta de Conjuntura FEE – Mariana Lisboa Pessoa

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