O recrudescimento inflacionário e a política econômica

A inflação oficial medida pelo IPCA voltou a acelerar-se a partir de setembro de 2010, apontando um crescimento dos preços acumulado no ano que ficará acima da meta estabelecida pelo Banco Central, embora esta deva ficar situada dentro da banda. Assim, de janeiro a novembro, a inflação acumulada esteve em 5,2%. Quando analisado por grupos de produtos, verifica-se que esse percentual tem sido puxado por alimentação e bebidas (8,9%), despesas pessoais (6,8%) e vestuário (6,1%). Também merece destaque o setor serviços, o qual acumulou, nesse mesmo período, um crescimento de 7,0%.

Essa trajetória aceleracionista da inflação voltou a levantar rumores e a criar expectativas sobre a necessidade de o Banco Central elevar as taxas de juros tal qual vinha ocorrendo desde a implementação do Regime de Metas Para a Inflação. Tal medida, no entanto, não foi adotada na reunião de dezembro do Copom. Com isso, essas expectativas acabaram sendo transferidas para a reunião de janeiro.

O crescimento nas taxas de inflação, no entanto, não temsido uma peculiaridade brasileira. Uma análise da evolução dos preços no mercado internacional demonstra que a inflação brasileira vem refletindo a trajetória da inflação mundial, onde os preços dos alimentos e do vestuário têm apresentado alta expressiva ao longo dos últimos dois anos. A inflação no mercado internacional tem resultado do crescimento da demanda mundial por alimentos, bem como da elevação do preço das commodities. O preço destas últimas reflete não só o aumento na demanda, como também o fato de esses produtos terem o seu preço atual influenciado pela especulação no mercado futuro. Ou seja, até mesmo a inflação passa a refletir o processo de financeirização. Numa economia integrada ao comércio mundial e com empresas internacionalizadas, como é o caso da brasileira, a inflação externa acaba por refletir-se diretamente sobre os preços internos, pelo crescimento dos preços tanto dos bens finais como dos insumos. Assim, são justamente os bens comercializáveis os principais responsáveis pela aceleração inflacionária verificada nos últimos meses (gráfico).

Evidentemente, não se deve desconsiderar a chancela da demanda doméstica ao crescimento dos preços. De fato, o aumento no consumo das famílias, em virtude do crescimento e da distribuição da renda que vem ocorrendo nos últimos anos, associado ao crescimento do emprego, tem corroborado aquele processo. Mas trata-se de um equívoco atribuir ao crescimento da economia nacional e, mais especificamente, ao consumo das famílias o título de principal responsável pela aceleração inflacionária.

O cenário descrito acima parece sinalizar uma reduzida eficácia da política monetária enquanto instrumento de controle de uma inflação que reflete aspectos que operam em nível mundial e não apenas nacional. Além disso, os produtos responsáveis pela aceleração da inflação apresentam uma reduzida elasticidade-juro da demanda. Diante disso, o controle do preço dos alimentos via juros iria requerer uma variação extremamente elevada na taxa Selic, o que certamente iria trazer mais complicações em termos de taxa de câmbio e balança de pagamentos. Até mesmo medidas de restrição no crédito de bens duráveis terão uma eficácia limitada, principalmente porque o cenário futuro é de manutenção do crescimento do preço dos produtos alimentares. Assim, é de se esperar que a próxima reunião do Copom procure monitorar a inflação brasileira, levando em consideração os cenários macroeconômicos nacional e mundial, e não se limite à desgastada e ineficaz política de aumento dos juros.

O recrudescimento inflacionário e a política econômica

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