O que esperar para as exportações gaúchas em 2017?

O atual cenário recessivo brasileiro enseja diversos questionamentos a respeito das possibilidades e perspectivas de uma possível retomada do crescimento da economia do País, assim como da gaúcha, em 2017. Na comparação com o trimestre imediatamente anterior, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro vem recuando há seis trimestres sucessivos, desde o primeiro de 2015. Já na comparação interanual, a queda vem de nove trimestres consecutivos, acompanhada, há pelo menos seis trimestres sucessivos, por praticamente todos os componentes do produto. No mesmo sentido, o PIB do Rio Grande do Sul registrou quedas em oito dos últimos nove trimestres, desde o segundo de 2014.

Por outro lado, a exceção desse movimento são as exportações de bens e serviços, as quais são o único componente do PIB, pela ótica da demanda, a apresentar contribuição positiva desde 2015. O coeficiente de exportação da indústria de transformação apresentou, em 2015, uma reversão da trajetória de queda observada desde 2006 e mantém uma evolução positiva até o presente momento. Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil foi o país, entre as grandes economias, que mais aumentou os embarques no primeiro semestre de 2016, e, embora com receitas menores por conta dos preços mais baixos dos produtos, a quantidade embarcada pelo País em 2016 no acumulado janeiro-outubro é a maior de toda a série histórica pelos dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC). Os números do RS, na média, também seguem essa direção.

Recorrendo aos dados de registro fiscal de saídas da Secretaria da Fazenda do RS, é possível identificar três tipos de destinos das vendas gaúchas: para dentro do Estado, para o restante do Brasil e para o exterior. O gráfico abaixo evidencia que 2015 foi o ponto de inflexão das trajetórias crescentes das vendas para o resto do Brasil e das decrescentes para o exterior. A partir do referido período, todavia, as receitas em reais das vendas ao exterior cresceram fortemente. Nesse sentido, a recessão não prejudicou tanto as exportações do Estado, pelo contrário: a retração do mercado nacional, a forte depreciação da taxa de câmbio e uma demanda maior dos principais parceiros comerciais contribuíram para o incremento dos embarques, a rentabilidade dos exportadores e a elevação do número de empresas exportadoras, consolidando o mercado externo como alternativa viável à destinação da produção não vendida internamente. A questão que se impõe neste momento é se essa dinâmica favorável das exportações se manterá, ou não, em 2017.

Primeiramente, é mister compreender as perspectivas de crescimento do produto e do comércio mundiais. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o produto global, que cresceu 3,2% em 2015, tem previsão de crescimento de 3,1% para 2016 e de 3,4% para 2017, crescimentos esses puxados pelos países emergentes, sobretudo pela gradual normalização das condições macroeconômicas em economias que passaram por recessões e pelo aumento do peso dos países de rápido crescimento na economia mundial. Contudo, tal cenário é dependente de alguns fatores atinentes a riscos tanto políticos, tais como as incertezas em relação ao Brexit e a possibilidade de discursos protecionistas se refletirem nas políticas comerciais, quanto econômicos, tais como a estagnação persistente das economias avançadas, o ajustamento da economia chinesa e seus efeitos sobre a economia mundial, além da volatilidade financeira dos países emergentes.

O arrefecimento da demanda global nos últimos anos (em especial do investimento) desempenha um papel importante para explicar o crescimento moderado do comércio. Nesse particular, 2016 deve ser o ano com o ritmo mais lento de crescimento do comércio e do produto mundiais desde o auge da crise financeira internacional, em 2009. O volume do comércio, que cresceu a taxas médias de 2,1% a.a. entre 2012 e 2015, obteve crescimento zero até julho de 2016. A projeção da OMC é de crescimento de 1,7% no final do ano e de algo entre 1,8% e 3,1% em 2017. Adicionalmente, o comércio, que crescia, na média, o dobro da taxa do produto global desde os anos 80 até a crise financeira, desacelerou pela metade e passou a acompanhar a taxa média de crescimento da atividade econômica no período recente, com possibilidade de crescer menos que o produto em 2016, algo inédito há 15 anos. Mesmo com uma possível melhora da demanda externa em 2017, os riscos continuam sendo altos.

Em relação ao principal item da pauta de exportação gaúcha, a soja em grão, a Emater-RS projeta uma redução na produção de 2,1%. Apesar de uma possível retração da quantidade exportada em 2017, o preço do grão vem revertendo a trajetória baixista desde o fim do boom das commodities. De forma mais geral, a intensa retração dos preços dos bens exportados iniciada em meados de 2014 começa a dar sinais de desaceleração, embora incipientes, sobretudo os preços dos produtos básicos, que já registram uma trajetória ascendente desde abril de 2016, no acumulado em 12 meses, no Estado. Nesse tocante, os preços das commodities, que atingiram o seu menor valor no início de 2016 desde o fim do boom, agora exibem certa valorização — em grande parte, pela dinâmica das commodities energéticas. Já a projeção para os preços de produtos relevantes na pauta exportadora do Estado, como os do complexo soja, as carnes e o fumo, é de ligeira redução, embora o cenário ainda seja incerto.

Em relação à produção industrial, o Estado acumula um recuo de 5,2% nos primeiros oito meses do ano, e de 8,8% nos últimos 12 meses. Apesar da desaceleração das quedas, uma retomada sustentada já para 2017 mostra-se difícil, mesmo que exista grande capacidade ociosa na indústria. Ademais, a taxa de câmbio nominal, que vinha em forte depreciação desde o início de 2015 — alcançando R$/US$ 4,04 no final de janeiro de 2016 —, fechou outubro a 3,18. A expectativa do mercado financeiro para 2017, segundo o Relatório Focus, é de uma taxa a 3,33.

Dessa forma, o atual cenário, caracterizado pelo baixo crescimento do comércio e do produto globais e pela elevação de práticas protecionistas, impõe o acirramento da concorrência aos produtos gaúchos no exterior e lança mais desafios para as exportações em 2017. Todavia, por apresentar uma pauta exportadora concentrada em poucos produtos e destinos, uma recuperação de parceiros comerciais relevantes e uma evolução mais favorável dos preços dos bens exportados podem reverter um cenário ainda pior para as vendas externas gaúchas.

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Como citar:

TOREZANI, Tomás Amaral. O que esperar para as exportações gaúchas em 2017? Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/o-que-esperar-para-as-exportacoes-gauchas-em-2017/>. Acesso em: 21 de outubro de 2017.

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