O que esperar do Brexit?

No plebiscito do último 23 de junho, no Reino Unido, sobre a permanência do País na União Europeia (UE), a campanha pela saída, apelidada como “Brexit”, sagrou-se vitoriosa. Trata-se de um evento sem precedentes na história do bloco, o que tem gerado dúvidas e inquietações no mundo e, mesmo, no Brasil.
As indefinições mais prementes referem-se às negociações sobre a separação entre a UE e o Reino Unido. Muitas questões concretas serão abordadas, como, por exemplo, quais regras determinarão as relações econômicas entre ambos os espaços, se o Reino Unido deverá negociar separadamente novos acordos comerciais com outros países e blocos e, não menos relevante, qual será o regime de circulação de pessoas a viger entre ambos os espaços.
Caso a nova primeira-ministra, Theresa May, consiga neutralizar a influência dos “eurocéticos” em seu Gabinete, o processo poderá ser menos traumático. Porém, se o governo britânico se debilitar, seja por influência de setores pró-Brexit, seja pelo recrudescimento dos movimentos pró-independência na Escócia e na Irlanda do Norte, sua posição negociadora se fragilizará e os entendimentos com a UE serão comprometidos.
Os prognósticos para o Brasil têm sido majoritariamente pessimistas. Entre as preocupações, citam-se o retardamento da recuperação econômica e a escalada de tensões políticas na Europa. Ademais, defensores do acordo entre o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a UE perderão um aliado, pois o Reino Unido tem sido entusiasta desse mecanismo e, ao mesmo tempo, crítico ao protecionismo da Política Agrícola Comum da UE, posições semelhantes às da Alemanha. Por outro lado, países mais protecionistas, como França, Espanha e Irlanda, deverão aumentar sua influência no bloco. Por fim, como os negociadores europeus direcionarão suas atenções ao Brexit, as demais negociações comerciais perderão prioridade no momento, inclusive o acordo com o Mercosul.
Mesmo que se assinem tratados comerciais entre o Mercosul e o Reino Unido, a capacidade desse país para importar pode deteriorar-se, caso sua moeda, a libra esterlina, permaneça significativamente desvalorizada. Fenômeno semelhante pode ocorrer em relação aos investimentos britânicos no exterior.
Para o Rio Grande do Sul, o Brexit poderá impactar diretamente as exportações oriundas do Estado para o Reino Unido e, indiretamente, as exportações para a UE. Conforme o Sistema de Exportações FEE (SisExp FEE), em 2015 as exportações gaúchas para a UE totalizaram US$ 2,5 bilhões (14,5% do valor total exportado pelo Estado). Desse total, 93,8% corresponderam a produtos da indústria de transformação, mantendo-se o padrão observado na série história de exportações iniciada em 2007.
As exportações para o Reino Unido comportam-se de forma idêntica às exportações para a UE, com elevada concentração de produtos da indústria de transformação. Em 2015, o Reino Unido respondeu por 7,8% das exportações industriais para a UE. Nos últimos anos, os principais itens exportados ao Reino Unido são de abate e produtos de carne, fumo processado, calçados, resinas e móveis.
Cabe notar que os destinos das exportações do Estado para a UE se concentram em poucos países, sobretudo Alemanha e Países Baixos, os quais as redistribuem a terceiros países no bloco. Pode haver redirecionamento parcial do destino dos embarques dos produtos gaúchos, reduzindo-se a participação desses dois países e aumentando a do Reino Unido, mas há dúvidas se essa readequação será rápida e sem prejuízos aos exportadores gaúchos.
As instabilidades políticas e seus reflexos nos fluxos comerciais intrabloco podem impactar a atividade industrial gaúcha diretamente, bem como provocar disfunções em outros mercados atendidos pela produção local. Uma crise no Reino Unido também poderá ter efeito na mesma direção, ainda que em menor intensidade.
Uma rápida e menos intempestiva resolução da questão, com a preservação da estabilidade política e econômica na União Europeia, configura-se no melhor cenário para as exportações gaúchas. Isso se torna ainda mais importante uma vez que a economia do Estado e, em especial, a indústria de transformação ainda absorvem os efeitos da recessão nacional de magnitude raramente vista.

Composição das exportações do RS para a UE e participação do Reino Unido no total exportado para a região — 2015

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