O preço internacional da soja no último decênio

A valorização do preço internacional da soja, a partir da segunda metade de 2006, beneficiou os exportadores líquidos desse produto, entre eles o Brasil e o Estado do Rio Grande do Sul. Se, por um lado, esse movimento recente de valorização foi acompanhado por elevação da renda, por outro, enseja preocupações, haja vista a dependência do Produto Interno Bruto (PIB) e da performance das exportações do País e do Estado em relação ao preço do grão.

Diante dessa conjuntura, torna-se pertinente o estudo do movimento desse preço no mercado internacional, assim como o apontamento dos possíveis eventos que estejam colocando em marcha a sua trajetória de preços.

Para isso, primeiramente, é preciso ressaltar que, na segunda metade de 2006, a soja — assim como as demais commodities agrícolas — se inseriu em uma trajetória sem precedentes de crescimento de preços internacionais de commodities que já vinha sendo puxada por metais e combustíveis, pelo menos desde meados de 2003.

Nesse ínterim, insere-se o comportamento do preço da soja. Conforme os dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), o preço da oleaginosa multiplicou-se por 2,65 entre abril de 2006 e julho de 2008, este último sendo o ápice do preço até então. Após, desvalorizou-se bruscamente, em meio à crise financeira mundial.

A redução das posições dos investidores de índice em mercados futuros de commodities ocorreu em simultâneo à redução de preços, o que não permite descartar a hipótese de influência da especulação financeira nos preços. Para a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), essa retirada das posições em mercados futuros ocorreu em face das necessidades de cobrir as perdas financeiras com a crise. Já a retomada das posições ocorreu na sequência da política monetária expansionista norte-americana.

Assim, o preço da soja não somente se recuperou da queda como, em agosto de 2012, atingiu uma nova marca histórica, com elevação de 12,41% em relação ao pico anterior. A partir de então, o preço da soja desacelerou, mas manteve-se em uma relativa estabilidade até 2014. A partir do segundo semestre de 2014, emergiu uma tendência mais evidente de depreciação do preço. Apesar dessa redução de valor, ainda se mantém em um patamar muito superior em relação aos anos iniciais de crescimento — o preço da soja em março de 2015 é ainda 72,14% superior ao preço de abril de 2006.

Uma explicação recorrente para essa desaceleração de preços é a suposta redução do consumo chinês de soja ou a diminuição no crescimento da sua demanda. As importações chinesas de soja em quantum não diminuíram nos últimos anos, conforme dados do National Bureau of Statistics of China. De fato, houve uma desaceleração na taxa de crescimento no período pós boom, mas essa não parece ser a explicação exclusiva para esse movimento, pois é preciso ressaltar que o consumo chinês de soja cresce a taxas decrescentes desde o início do boom.

Por outro lado, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos tem enfatizado que a oferta mundial do grão se elevou. No entanto, ao dimensionar essa maior oferta pelo nível de ociosidade da indústria chinesa processadora de soja — em torno de 50% —, é difícil falar em uma oferta de soja em excesso.

Dessa forma, ganham destaque outros fatores que também podem estar influenciando o preço da soja, como a desvalorização das commodity currencies, a política monetária estadunidense, a especulação financeira e os custos de produção. Sem o intuito de hierarquizar os possíveis determinantes, destaca-se a sincronia entre o preço da soja e do petróleo a partir do ponto no qual o preço do barril de petróleo atinge os US$ 50.

Para alguns estudos do Banco Mundial, a variação do preço do combustível explicaria em torno de 50% da variação do preço das commodities agrícolas. Por hipótese, uma explicação para isso pode estar no fato de que o petróleo é um dos principais componentes dos fertilizantes utilizados na produção.

Por todos esses motivos, não se deve subestimar a necessidade de um estudo mais profundo dos possíveis determinantes do preço da soja. A sua negligência pode pegar de surpresa os formuladores de política, obstinados em dar uma resposta rápida e simples a um fenômeno que se mostra mais complexo do que se imagina.

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O preço internacional da soja no último decênio – Clarissa Black

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