O impacto dos termos de troca no crescimento econômico

No período 2003-11, de valorização expressiva dos preços internacionais de commodities, melhoraram os termos de intercâmbio e abriu-se espaço para o crescimento econômico dos países exportadores desses produtos, como o Brasil e os demais países da América Latina. Após os preços nominais das commodities agrícolas e metálicas atingirem o pico em abril de 2011 — os combustíveis tiveram seu auge em 2008 —, surgiu a discussão sobre se esse período seria sucedido por uma queda repentina desses preços — seguindo a dinâmica boom-bust —, ou por um período de estabilidade, ou, ainda, por uma leve redução.
Não parece haver discordância, no debate recente, com relação ao fim desse movimento de valorização. Se, por um lado, a taxa de crescimento desses preços desacelerou desde 2011, por outro, o nível médio do período maio/2011-jul./2014 é superior ao da média dos anos de boom.

Assim, o Economista Bertrand Gruss publicou um estudo, no Fundo Monetário Internacional (FMI), em agosto deste ano, com o seguinte questionamento: o que foi mais relevante para o crescimento econômico dos países exportadores de commodities no intervalo 1970-2013, o nível dos preços reais de commodities ou a sua taxa de crescimento? O estudo conclui que o crescimento do PIB não mostra associação com o nível destes preços relativos, mas apresenta relação com a sua taxa de crescimento.
No entanto, é importante ressaltar que essa relação não é automática. Para se compreender a dinâmica de ligação entre uma variação dos termos de troca e o crescimento econômico, é necessário averiguar quais são os seus canais de transmissão. Para fins metodológicos, separaram-se três canais principais: um “direto”, um “indireto” e outro “subordinado”. Os três caminhos exigem condicionantes para que um choque favorável dos termos de troca afete o crescimento econômico positivamente.

O primeiro canal de transmissão é o efeito-preço nas exportações de commodities. Isso impacta a renda e o produto, pois as exportações são fonte de demanda. No Brasil, a participação das exportações desses produtos no Produto Interno Bruto (PIB), em 2013, foi de 6,65%. O condicionante é que não ocorra efeito negativo sobre o quantum exportado — é razoável esperar, inclusive, um aumento nas quantidades, estimulado pela maior rentabilidade. Não se pode deixar de mencionar os efeitos multiplicadores sobre o consumo e o investimento.

O segundo canal é o efeito-quantum nas exportações de manufaturados para parceiros comerciais exportadores de commodities, principalmente para os vizinhos latino-americanos. Ele é “indireto”, pois depende do impacto da variação dos termos de troca no PIB desses parceiros.

Apesar de as vendas externas brasileiras para a América do Sul representarem apenas 1,84% do PIB do Brasil, a participação das exportações de commodities no PIB dessa região alcançou 15,39% em 2013. Esse percentual é superior aos 6,65% do Brasil, haja vista suas economias domésticas serem menos robustas e diversificadas que a economia brasileira. O seu condicionante é a existência de relações comerciais consolidadas com esses parceiros.

Nos últimos anos, apesar da inserção das exportações chinesas na América do Sul — a qual se intensificou no período pós-crise —, foi possível aumentar as vendas externas brasileiras para essa região.

Por fim, o terceiro canal é a melhora do balanço de pagamentos e a possibilidade de aumentar as importações, para dar suporte a uma política de estímulo ao crescimento. O condicionante são as condições financeiras globais favoráveis. Denomina-se esse canal de “subordinado”, pois o seu impacto no crescimento econômico depende da decisão governamental de estimular a demanda interna.

Uma breve análise da performance econômica do Brasil nos períodos de Lula e Dilma corrobora a análise anterior, tendo em vista que a média dos termos de troca no Governo Lula (101,68) é menor que a média do Governo Dilma (123,08), mas o primeiro ocorreu em período de boom nos preços de commodities. Por sua vez, o Governo Dilma, apesar da média superior dos termos de intercâmbio, acontece em um momento de desaceleração do crescimento desses preços. Isso, entre outras coisas, se reflete na taxa média de crescimento do PIB de 4,03% a.a. para o primeiro e de 2,08% a.a. para o segundo.

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O impacto dos termos de troca no crescimento econômico – Clarissa Black from Fundação de Economia e Estatística

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