O futuro nas entrelinhas do presente

A rota da economia brasileira funda-se num desejo nacional de ser uma grande nação, de estar entre os países que decidem as coisas do mundo. Acreditando e desacreditando, os brasileiros escutam as promessas do Programa de Aceleração Econômica (PAC); mas o PAC é um plano que diz mais coisas do que a letra fria do texto aceita. É sempre fundamental ler qualquer palavra não só na sua literalidade, mas também no seu espírito, ainda mais quando se relaciona com o que está fora dos seus parágrafos. Temos que a ouvir no contexto da contemporaneidade. E a pergunta impõe-se: quais são o contexto e a moldura do PAC? Uma de suas figuras é, sem dúvida, a necessidade de desenvolver o País: crescimento dos capitais, aumento do emprego, distribuição de renda, integração ampliada do Brasil no mundo, etc. Somos, logo dá para ver, um jardim a ser cultivado, para usar a idéia de Voltaire no Candide. E, assim, perguntamos: que jardim é esse que pede para ser trabalhado?

Ouçamos, então, o PAC nas suas linhas, entrelinhas e contexto. Constata-se, com calma, que a grande proposta está escondida, que vem oculta e que nos olha com a sua pretensão. O que existe no seu cofre é o pensamento de uma fração do Governo que está enxergando o estado das artes no mundo e que compreende, com perspicaz clareza, que a base energética da economia capitalista vai mudar. Os indícios principiam no discurso de Bush, anunciando a diminuição em 20% no consumo norte-americano do petróleo. A decisão, com toda certeza, afetará a enorme esfera produtiva dos Estados Unidos e do mundo. A gênese de transformação da atual estrutura econômica começa pelo setor energético e vai sair do petróleo para um ponto de transição, onde triunfará um mix: o petróleo e mais outra(s) energia(s). Essa é a razão pela qual o Brasil veste o traje do etanol e do biocombustível. Então, o que o Governo anuncia no PAC é a confirmação da Petrobrás como o centro da sua estratégia, para que carregue uma liderança energética, onde os empresários terão a sua palavra. Com isso, a Nação tropical inscreve- se, com ousadia calculada, para ocupar um lugar destacado na famosa seita dos países emergentes, que agrupa China, Rússia, Índia e Coréia, além do próprio Brasil. Ou seja, a mudança da base da esfera produtiva do capital, a energia, vai fazer com que se eleve, progressivamente, a taxa de lucro esperada de toda a produção. Dito de modo keynesiano: vai haver um aumento da eficiência marginal do capital.

A segunda grande coisa no nível estratégico do Programa está dito ali, explicitamente: provocar a aceleração do Brasil no que tange ao crescimento da sua economia. Nessa altura, o PAC ruma para enfrentar a deterioração da infra-estrutura nacional. Acompanhado do setor privado, o Governo encaminha uma proposta que se refere, numa perspectiva, à logística da produção, principalmente em relação à infra-estrutura de transportes. Se efetivada a tarefa, teremos um instrumento mais pleno e com menos custo para a distribuição dos bens em ambos os mercados, interno e externo. Já numa outra perspectiva, vigora a intenção de um tratamento para a infra-estrutura urbana, que pretende, com esse desígnio, dar vigor às questões do saneamento e da construção civil, favorecendo, obviamente, com esses tópicos, o desenvolvimento da indústria e seus empregos e a vinculação do Programa a uma expansão da habitação popular.

Para finalizar, resta indicar o momento histórico decisivo que estamos atravessando. De um lado, a economia mundial vai-se transformar. E o ponto nodal dessa metamorfose é a sua base energética. Assim, quem puder se adiantar no processo pode sair dele numa posição vantajosa e, quem sabe, de liderança. Por isso, o acordo de intenções com os Estados Unidos — ocorrido depois do PAC — é um lance diplomático, econômico, político e tecnológico de envergadura. Esta é a hora. É possível que também estejamos no começo do que Schumpeter falava, da “destruição criadora” cíclica. Assim, a postura do Brasil é a de quem se prepara para ocupar, na reorganização da economia mundial, uma posição de destaque. Se o futuro se antecipa, os dias correntes precisam de reforço e de ação. Nada melhor do que recuperar, mesmo que timidamente, a infra-estrutura nacional. O futuro tem que ter apoio no presente.

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