O fraco desempenho da indústria no Brasil

A produção industrial brasileira avançou 1,9% em junho, após recuo de 1,8% em maio, na comparação com o mês anterior, acumulando expansão de 1,9% no ano. Essa dificuldade de crescimento da indústria, em especial da indústria de transformação, é marcante no atraso do desenvolvimento econômico e social do Brasil. A compreensão desse processo na atualidade deve ser inserida num contexto de longo prazo, a partir da análise da evolução da estrutura industrial nas últimas décadas. Sob essa perspectiva, a história contemporânea da economia brasileira divide-se em duas fases nitidamente distintas, cuja ruptura foi verificada no início da década de 80.

Ao longo da primeira fase (1947-80), ocorreu a implantação da estrutura produtiva que, de modo geral, caracteriza a indústria da atual economia brasileira. A construção de uma ampla e diversificada estrutura produtiva nesse período teve como elemento central a implantação de grandes projetos orquestrados por políticas públicas, visando à construção do parque industrial para atender ao mercado interno em substituição às importações. Mesmo onde não se tratava de implantar grandes projetos, mas de introduzir novos elos das cadeias produtivas por capitais privados, o avanço da produção industrial deu-se numa direção definida e promovida por uma estratégia de desenvolvimento dirigida pelo Estado. Tal estratégia foi capaz de guiar as decisões de investimentos empresariais, assegurando um ambiente de consistente e elevado crescimento econômico (média de 7,5% a.a.). A consolidação de uma percepção compartilhada para uma verdadeira vocação do crescimento da indústria, garantido e induzido pela política econômica, tornava o crescimento econômico um processo “autorrealizável”.

A segunda fase (1980-2013) da indústria no Brasil caracteriza-se pela ausência de uma estratégia de desenvolvimento. Apesar de mínimas modificações na estrutura produtiva nesse período, grandes mudanças foram introduzidas no âmbito das empresas e em sua relação com os mercados, aceleradas pela abertura econômica e pela estabilização trazida pelo Plano Real nos anos 90. Tais mudanças deram-se no gerenciamento e organização do trabalho dentro das empresas, bem como no conjunto de produtos ofertados (implicando aprendizado, adoção de novas tecnologias, processos e utilização de novos insumos), e, muitas vezes, na alteração da estrutura patrimonial das empresas. No entanto, a mais importante mudança desse período, com profundas implicações para o atual desempenho industrial, vincula-se à forma como a economia passou a “evoluir”. Fundamentalmente, o processo de industrialização, através da implantação de novos projetos orientados pelo Estado, deixa de ser o eixo central do crescimento. A economia passa a evoluir sem uma direção definida por uma estratégia destinada a desenvolver novos setores estratégicos para a matriz produtiva brasileira. Nesse contexto, a economia ingressou em uma trajetória de baixo crescimento durante todo o segundo período (média de 2,5% a.a.), associado a uma queda da participação da indústria de transformação no valor adicionado total da economia (de 16,9% em 2002 para 13,3% em 2012).

Esse padrão pode ser observado pela atual estrutura do valor adicionado da indústria, em que os setores com maior participação vinculam-se ao antigo padrão tecnológico, concentrados em indústrias maduras e em atividades processadoras de recursos naturais, com baixa capacidade de promover o dinamismo econômico e tecnológico. Em 2011, último ano com informação disponível, as atividades de maior participação no valor adicionado da indústria foram: fabricação de produtos alimentícios (12,6%), extração de minerais metálicos (9,9%), fabricação de coque, produtos do petróleo e bicombustíveis (9,8%), veículos, reboques e carrocerias (9,5%), produtos químicos (6,7%), máquinas e equipamentos (5,3%), metalurgia (4,9%), produtos de metal (4,4%), produtos de minerais não metálicos (3,9%) e produtos de borracha e plástico (3,6%). Em conjunto, essas atividades detêm 70,6% do valor adicionado da indústria e, consequentemente, são responsáveis pela dinâmica do crescimento econômico.

Em meio a uma trajetória de “quase estagnação” da indústria, observam-se ainda episódios de crescimento seguidos por retrocessos. Apesar de períodos de forte recuperação, torna-se evidente que esses movimentos não se sustentam no longo prazo. A dificuldade de ingresso numa trajetória sustentada de crescimento sugere que o atual padrão, apoiado na expansão do mercado interno e na demanda externa por commodities agrícolas e minerais, tem reduzida capacidade de induzir a uma forte expansão da economia e da produtividade industrial. A retomada do crescimento e da participação da indústria de transformação na economia requer uma estratégia de longo prazo que redefina a inserção global e assegure o potencial de novos desenvolvimentos, expandindo a produtividade através da mudança estrutural com inovações. As medidas adotadas de expansão da produção e do emprego industrial tem se mostrado insuficientes e de horizonte temporal restrito, impedindo ainda mais o ingresso da economia em uma nova trajetória de desenvolvimento.

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