O espectro da inflação

O IGP-M acumulado entre dezembro de 2001 e novembro de 2002 foi de 21,04%. Vários analistas criticaram o destaque dado ao fato, uma vez que o IGP é um índice compósito, muito influenciado pelo Índice de Preços do Atacado (IPA), que tende a flutuar mais do que os Índices de Preços ao Consumidor (IPCs). O argumento procede, mas o problema é que, pela primeira vez desde 1996, os IPCs também vêm atingindo os dois dígitos. O Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) acumulado no mesmo período é de 10,93%. O que faz todos perguntarem: a inflação é episódica ou voltou para ficar?

Do longo debate sobre inflação desde os anos 60, uma certeza ficou: a principal componente do processo inflacionário é expectacional. A polêmica deixa de ser se a inflação é de custos ou de demanda. O que se discute agora é como são definidas e sancionadas as expectativas de inflação futura.

Do nosso ponto de vista, os agentes tomam a evolução recente dos seus custos monetários (inclusive os de oportunidade) como a componente fundamental da precificação e da formação de expectativas sobre a evolução do nível geral de preços. Dado o grau de monopólio, as firmas precificam pela imposição de um mark-up rígido sobre seus custos diretos. O que empresta ao câmbio (que afeta os custos com importados, os custos de oportunidade das vendas no mercado interno e o grau de monopólio dos produtores nacionais) e aos salários absoluta centralidade no processo de formação de preços e de expectativas.

Ora, o Banco Central não vem conseguindo coordenar o câmbio. E isto a despeito do excelente desempenho das contas externas em 2002, quando foi alcançado o primeiro superávit comercial de dois dígitos (US$ 11,3 bilhões até novembro) após os déficits no período 1995-00. Em outubro último, o saldo positivo da balança comercial compensou o déficit em serviços, equilibrando as transações  correntes no mês. E, dado que se continua recebendo um aporte expressivo de investimentos diretos estrangeiros por ano (até outubro de 2002, US$14 bilhões de IDE), as necessidades de financiamento externo vêm caindo sistematicamente.

Ainda assim, a pressão cambial prossegue, porque a demanda especulativo-precaucional por divisas tem sido explosiva. E é a incerteza que vem alavancando a demanda por “liquidez keynesiana”, pela liquidez segura da divisa (por oposição à liquidez insegura da moeda nacional e à segurança ilíquida dos imóveis).

Para enfrentar a incerteza, é preciso dar parâmetros ao mercado. Mas, sem controle do câmbio, não há como sustentar as metas de inflação e, simultaneamente, baixar os juros e a pressão financeira sobre as contas públicas. E o único instrumento soberano de resgate do controle sobre o câmbio é a geração de superávits comerciais ainda mais expressivos. O que envolve uma política ativa e criativa de apoio às exportações.

Além disso, é preciso tomar com seriedade o inercialismo e entender que, com mark-ups rígidos ou ascendentes, os salários nominais não definem os salários reais. O que significa que o novo Governo deve: (1º) evitar a tentação de refundar, formal ou informalmente, políticas salariais com indexação automática; (2º) voltar sua política industrial à redução do grau de monopólio dos mais diversos setores (pois esta é condição para a elevação dos salários reais e para o controle da inflação); e (3º) operar a taxa de juros como a principal âncora dos preços até a retomada do controle sobre o câmbio.

Em suma, a inflação voltou, mas não necessariamente para ficar. Sua dinâmica depende da capacidade de o novo Governo colocar o câmbio sob controle, impedir o retorno da indexação e reduzir a demanda especulativa por divisas. Esta não é uma tarefa fácil. Mas é viável e necessária.

O espectro da inflação

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