O embargo agrícola russo e seus efeitos nas exportações gaúchas

A Rússia tem sido uma importante parceira no comércio exterior do Rio Grande do Sul, sobretudo como compradora de tabaco e, principalmente, carne suína, produtos que concentram quase a totalidade da pauta para esse país. Apesar de relevante, essa interação tem sido irregular, intercalando momentos de abrupta expansão, assim como de arrefecimento, principalmente devido à imposição de barreiras sanitárias e cotas de importação e à instabilidade econômica do lado russo. Essa irregularidade no comércio é explicada pelas exportações de carne de porco. Dessa forma, a presente análise dará especial atenção a esse produto.

Um dos desdobramentos mais recentes dessa atividade ocorreu em 6 de agosto de 2014, quando, em resposta às sanções impostas por diversos países, o presidente russo, Vladimir V. Putin, assinou um decreto que embarga a importação de bens agrícolas produzidos nos Estados Unidos, no Canadá e em todos os membros da União Europeia — notadamente grandes exportadores agrícolas. A retaliação russa, no momento de sua publicação, criou um potencial de comércio agrícola para os países não atingidos diretamente pelo embargo, inclusive para o Brasil, dada a sua reconhecida competitividade global no setor agrícola.

No entanto, em virtude dos problemas econômicos por que o país eurasiano passa, como a atual recessão e a significativa desvalorização de sua moeda, sobretudo a partir do final de 2014, faz-se o seguinte questionamento geral: como têm-se saído as exportações do Rio Grande do Sul para a Rússia após um ano de vigência do decreto?

A Rússia, tradicionalmente, ocupa uma posição modesta no comércio exterior brasileiro, não obstante o crescimento em termos absolutos em quase toda a primeira década deste século. Porém sua relevância para o Rio Grande do Sul é sensivelmente maior. Atualmente, a Rússia é o 20.° principal destino das exportações brasileiras, ao passo que, para o RS, ela ocupa a sétima posição. Entre janeiro e setembro de 2015, comparando-se com o mesmo período de 2014, enquanto a Rússia teve a quarta maior queda nas exportações brasileiras (-32,8%), no caso gaúcho obteve o quarto melhor desempenho, registrando uma alta em valor de 19,7%.

O segmento que explica grande parte do crescimento das exportações gaúchas para a Federação Russa é o de carne suína, que apresentou uma alta, em valor, superior a 30% no período em análise. Essa informação é particularmente notável, tendo-se em mente que as exportações totais de carne suína produzida no Estado sofreram uma queda de 5%. Isso leva a concluir, em primeiro lugar, que a Rússia aumentou sua participação nas exportações gaúchas de carne suína, e, em segundo lugar, que o aumento das exportações para esse país não foi suficiente para sustentar o nível das exportações do RS nesse setor. Além disso, mesmo com o aumento, em 2015, nas exportações do Estado para a Rússia no setor de suínos, os volumes exportados e a participação da carne suína gaúcha no mercado russo ainda estão longe de recuperar os níveis observados entre 2005 e 2010, período em que se verificou o ápice da relação comercial do RS com a Rússia.

Dado que, em 2015, o valor exportado de carne suína do Estado para a Rússia cresceu substancialmente e as importações totais do mesmo produto pela Rússia caíram no mesmo período, pode-se dizer que o RS obteve vantagem na realocação geográfica dos fluxos comerciais ocasionada pelo decreto. Nesse sentido, observa-se que o Estado conseguiu elevar o valor das suas exportações, diferentemente do desempenho do Brasil nesse período. Uma possível explicação para esse movimento é o número significativamente maior de frigoríficos gaúchos autorizados pelo governo russo a exportar carne suína, comparativamente a outros estados brasileiros.

O avanço das exportações do Estado para a Rússia em 2015 pode parecer tímido, levando-se em consideração os níveis observados entre 2005 e 2010 e o potencial criado pelo decreto. No entanto, pode-se afirmar que o embargo russo evitou não somente uma queda das exportações do Estado para esse país, como também atenuou, mesmo que marginalmente, uma queda maior das exportações totais do RS no ano em questão.

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