O dólar e a inflação

O dólar, para o Brasil, não é apenas a divisa na qual são feitos nossos principais pagamentos externos. O dólar divide com o real as funções específicas do dinheiro: unidade de conta e reserva de valor.

Essa função dual do dólar — meio de pagamento externo e unidade de conta e de reserva interna — cria um link indissolúvel entre taxa de câmbio e inflação. A desvalorização do real pressiona os preços internos: (a) pelo aumento dos preços dos bens importados; (b) pela elevação do grau de monopólio dos produtores internos, derivada da depressão da concorrência com os similares “importáveis”; (c) pelo aumento dos custos de oportunidade dos bens exportados; e, last, but not least, (d) pelo “efeito expectativa”,que induz à elevação “preventiva” dos preços das mercadorias e serviços, transacionados em reais, mas cujos custos e valor (também) são contabilizados em dólar.

Por isso mesmo, não há como deixar de se saudar a política monetária adotada até aqui. Ao elevar a taxa de juros, o Governo puniu os que especulavam contra a moeda nacional e recuperou o controle sobre o dólar e sobre a inflação. De 30.12.02 a 30.04.03, o dólar recuou de R$ 3,53 para R$ 2,89.

Nada poderia ser mais alvissareiro. Nem mais preocupante. E isto porque, agora, corremos o risco oposto: o de perdermos o controle sobre a valorização do real e, por conseqüência, sobre a oferta futura de dólares. Expliquemo-nos.

A elevação da taxa de juros só é eficaz para o controle de câmbio no curto prazo. Ela deprime a demanda especulativa sobre o dólar e estimula o endividamento externo. Mas ela não garante a ampliação autônoma e sustentável da oferta interna de dólares. No Brasil, tal ampliação só pode ser conquistada por uma expressiva ampliação do saldo comercial.

O problema é que o saldo comercial é função positiva da taxa de câmbio e função negativa do nível de renda interno. Assim, a ampliação do saldo comercial depende ou da desvalorização do real, ou da depressão da renda.

Esse é o nó. Para controlar a inflação, temos de limitar a desvalorização do real frente ao dólar. Mas, para controlar o dólar de forma sustentável, é preciso ampliar o saldo comercial. E a ampliação do saldo comercial depende da desvalorização do real. O que fazer?

Desde logo, o Bacen tem de monitorar o câmbio, elevando a taxa de juros para limitar a desvalorização inflacionária e rebaixando-a para impedir a valorização recessiva e insustentável do real. Além disso, há que se implementar uma ampla política industrial de apoio às exportações e de depressão do grau de monopólio de setores estratégicos. Tal política permitiria a conquista simultânea de saldos comerciais maiores e taxas de inflação menores para uma mesma taxa de câmbio.

A urgência de uma tal política industrial pode ser percebida no quadro abaixo. Nele, procuramos estimar a taxa de crescimento do PIB (em 2003) e as paridades R$/US$ para 2003 e 2004 que seriam necessárias para a obtenção de saldos comerciais de U$ 17 bilhões, U$ 20 bilhões e U$ 25 bilhões nos próximos três anos e taxas de crescimento de 3% e de 5% em 2004 e 2005. E o resultado é uma taxa de crescimento negativa em 2003 (-0,85%) e uma taxa de câmbio de R$ 3,45 neste ano e de R$ 4,00 no próximo (na hipótese de a inflação interna igualar a norte-americana nesses dois anos!). Valores preocupantes, que apenas revelam o caráter emergencial de políticas industriais voltadas a desatar o nó supracitado.

O dólar e a inflação

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