O comércio internacional de commodities

No primeiro decênio do século XXI, é proeminente a valorização dos preços internacionais das commodities. A compreensão desse movimento é importante para a economia brasileira, pois tem impactos na inflação, no câmbio e na balança comercial. Grande parte das análises relaciona esse comportamento ascendente de preços, quase exclusivamente, ao aumento da demanda chinesa por matérias-primas e, portanto, ao aumento no dinamismo do comércio internacional de commodities.

Dessa forma, é pertinente analisar o tão referenciado descompasso entre a demanda e a oferta. Na tabela, são apresentados os diferenciais, em pontos percentuais, entre as taxas de crescimento anuais das exportações mundiais (demanda) e as da produção mundial (oferta) em volume, com base nos dados da OMC.

Os resultados mostram que, de fato, no período 2003-10, houve um crescimento maior das exportações frente ao crescimento da produção em volume. Porém os excessos de crescimento da demanda de 1,71 ponto percentual ao ano para produtos agrícolas e de 1,19 ponto percentual ao ano para combustíveis e minérios não são tão expressivos, quando comparados aos do período 1994-98.

Neste último período, o comércio mundial foi mais dinâmico tanto para produtos agrícolas quanto para combustíveis e minérios. Esse resultado surpreende, pois esse é um período de redução nominal nos preços agregados de commodities.

Outro destaque é o período 1971-79, que apresentou um pequeno excesso de crescimento da demanda em relação à oferta para produtos agrícolas e, inclusive, um crescimento maior da oferta em relação à demanda para combustíveis e minérios. Entretanto esse é um período de aumento considerável nos preços primários

O panorama macroeconômico nos anos 70 compreendeu baixas taxas de juros nos Estados Unidos, desvalorização do dólar, especulação financeira e choques de petróleo. Curiosamente, esse arranjo em muito se assemelha ao do período atual.

A diferença é que, nos anos 70, uma onda inflacionária disseminou-se mundialmente, com forte reajuste de preços manufaturados. No período atual, por outro lado, os baixos custos de produção chineses têm contribuído para minimizar os reajustes nos preços dos manufaturados e arrefecer as pressões inflacionárias mundiais.

Essas constatações sugerem que, a despeito da influência dos elementos de oferta e demanda, há outros que devem entrar na análise dos determinantes de preços das commodities. A valorização do petróleo, a queda do dólar, a política monetária nos Estados Unidos e a especulação financeira também teriam alguma influência no movimento de alta dos preços das commodities verificado nos últimos anos.

A valorização do petróleo guardaria relação com um dólar fraco, uma vez que a desvalorização do dólar significa perdas de receitas de exportações para os países produtores dessa commodity. O reajuste do preço, em um contexto de crescimento econômico mundial, seria uma forma de compensação. A atividade especulativa com o petróleo ampliaria esse movimento.

Além disso, em alguns países, há um processo de “nacionalismo dos recursos naturais”, com impactos fiscais e restrições de acesso às fontes, o que aumenta custos de produção.

O petróleo mais caro, por sua vez, impacta os custos para as demais commodities — principalmente agrícolas —, ao encarecer os transportes, os insumos (fertilizantes) e os custos de oportunidade (substituição da produção agrícola por biocombustíveis).

Já as baixas taxas de juros operadas pelo Fed e a histórica correlação negativa entre commodities e ações tornaram atrativo o investimento em commodities. Há fortes indícios de que a especulação financeira tenha influência nos preços, embora esse tipo de interpretação não seja unânime entre os analistas. Uma evidência é o aumento da volatilidade, e outra é a maior sincronia tanto das commodities entre si quanto entre os índices de ações.

Por fim, os resultados mostram que a análise sobre os ciclos de preços das commodities é mais complexa que somente considerar elementos de oferta e de demanda. A tentativa de qualificar a avaliação dos determinantes desses preços é imprescindível, quando se deseja traçar um horizonte menos incerto para economias periféricas, como o Brasil, tão dependentes dos movimentos de preços das commodities.

O comércio internacional de commodities

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