O câmbio e a China modelam estratégias dos calçadistas gaúchos

Os dois últimos anos caracterizaram-se por quedas acentuadas de produção nas empresas gaúchas de calçados (-3,2% e -8,3% no período jan.-out.). Além do câmbio valorizado, que reduz a competitividade do produto local, a opção pelo mercado interno não se tem constituído em alternativa para esses fabricantes. O aumento de consumo de bens não duráveis vem-se dando nos segmentos de produtos mais baratos, que, no caso de calçados, ou são fabricados em outros arranjos produtivos brasileiros, ou são importados da China.

As dificuldades iniciaram nos anos 90, após a abertura da economia, que expôs as empresas calçadistas à concorrência internacional. Com mão-de-obra barata e custos de transação reduzidos, a China dominou rapidamente os segmentos de calçados de menor preço e, paulatinamente, passou a ocupar faixas de preços mais elevados, deslocando fabricantes gaúchos de mercados tradicionais. Exemplo disso é o caso do mercado norte-americano, que já representou 80% das exportações gaúchas e, hoje, absorve menos de 50%.

Ademais, a manutenção do real valorizado ampliou as dificuldades do pólo gaúcho produtor de calçados, que exporta parcela elevada da produção e agrega um grande número de empresas que realizam vendas sob encomenda, ou seja, com design e preço definidos pelo comprador. Isto porque é justamente no segmento de calçados de menor preço que os chineses são imbatíveis.

Nesse cenário adverso, os fabricantes gaúchos procuram adaptar-se, seja buscando menores custos de produção, seja investindo em design e em tecnologia. Uma saída, já utilizada em meados da década de 90, é o deslocamento de plantas para regiões com menores custos (mão-de-obra barata e incentivos fiscais). A outra, mais difícil, é o reposicionamento do produto: sair do segmento de calçados padronizados e de preços baixos para a produção especializada em calçados de maior valor agregado, vendidos em nichos de mercado e em volumes menores. Para tanto, as empresas buscam construir uma identidade, agregar valor, enfim, criar um diferencial competitivo. Esses esforços envolvem a contratação de estilistas, o investimento em modelagem e estudos de tendências, a abertura de lojas em shoppings e no exterior, de modo a tornar a marca conhecida.

O resultado dessa estratégia pode ser constatado pela análise dos dados de exportação, que mostram uma elevação continuada no preço médio dos calçados exportados, ao mesmo tempo em que se observa uma retração na quantidade de pares vendidos. No período jan.-out./05, o aumento do preço dos calçados exportados (24,2%) compensou a retração no número de pares vendidos (-16,2%), mas, em 2006, essa queda foi tão acentuada que a elevação do preço (17,0%) não conseguiu contrabalançar a redução na quantidade (-17,4%), ocorrendo queda nos valores exportados (-3,3%). Tal fato pode estar indicando dificuldades na manutenção das estratégias de agregação de valor e de diversificação de mercados, mas, sobretudo, a perda de competitividade decorrente da valorização do real.

O câmbio e a China modelam estratégias dos calçadistas gaúchos

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