O Brasil mais forte no front externo

É impossível preverem-se os desdobramentos e a duração da crise mundial. Da mesma forma, resulta inexeqüível antecipar as efetivas conseqüências da crise na economia nacional. É óbvio que o Brasil se depara com condições mundiais adversas ao seu crescimento, ao contrário do período de forte prosperidade global interrompido pela crise. Contudo, no período de prosperidade, o País logrou expandir largamente suas exportações, atrair vultosos investimentos estrangeiros diretos e acumular altas reservas cambiais, do que resultou a superação de sua prolongada fragilidade financeira externa. Esse fato lhe assegura maior resistência aos choques externos. Essa capacidade de resistência, longe de ser absoluta, poderá propiciar a retomada do crescimento nacional antes que a crise mundial se dissipe e na hipótese de que não recrudesça.

O Plano Real não “inaugurou” a fragilidade financeira externa da economia, mas agravou-a, pois, ao utilizar o câmbio valorizado como âncora dos preços, travou o crescimento das exportações e transformou os anteriores superávits comerciais em déficits. O fato acelerou o endividamento externo e elevou a classificação de risco da economia. Nessas circunstâncias, os fluxos financeiros, no País, mantiveram elevadíssima elasticidade à variação do grau de aversão ao risco no sistema internacional, ou seja, nas crises financeiras internacionais, a economia perdia grandes quantidades de reservas externas. Para estimular a volta dos financiamentos externos, o Banco Central elevava os juros, com o efeito colateral de derrubar o crescimento econômico. Em 1999, o Governo adotou o regime de câmbio flutuante, o que permitiu significativa desvalorização cambial. O saldo da balança comercial apresentou melhora imediata, mas, até 2001, em medida insuficiente para reduzir as necessidades de financiamento externo para valores sustentáveis. O processo de ajuste externo acelerou-se a partir de 2002, quando o superávit comercial saltou para US$ 13,1 bilhões, derrubando as necessidades de financiamento externo para confortáveis US$ 6,7 bilhões. Entre 2002 e 2008, o saldo acumulado da balança comercial atingiu US$ 227,6 bilhões; e o da conta de transações correntes somou US$ 9,2 bilhões. Assim, no período, o fluxo líquido acumulado da conta capital e financeira, de US$ 131,0 bilhões, serviu para elevar as reservas externas para US$ 193,0 bilhões; a dívida externa líquida caiu de US$ 165,0 bilhões para negativos US$ 27,6 bilhões.

Nesse processo de melhoria da solvência externa, cabe destacar-se o forte declínio do indicador serviço da dívida medido como percentual das exportações e do indicador juros medidos como percentual das exportações. Em ambos os casos, o declínio dos indicadores apontam a redução do percentual das exportações comprometido com o pagamento daqueles compromissos, quer dizer, tornou-se menos pesado honrá-los. A elevação das reservas medidas como percentual da dívida total atingiu, em 2008, 104,3%, evidenciando que o Brasil passou à condição de credor líquido. O importante é frisar-se que o Brasil conquistou a posição de devedor confiável e, também, que as reservas elevadas permitem fazer frente, com sucesso, à volatilidade da taxa de câmbio, a exemplo do que se assistiu recentemente. Isso e, não menos importante, o regime de câmbio flutuante permitem ao País ajustar-se às mudanças do cenário internacional sem penalizar pesadamente o crescimento, como ocorria no passado.

O Brasil mais forte no front externo

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