O Brasil e o medo da inflação (e do futuro)

Em 2008, o estouro da bolha imobiliária norte-americana marcou o início de uma prolongada estagnação nos países do centro. Em 2010, presenciou-se um novo capítulo da crise inacabada, desta vez com foco na situação fiscal de diversos países, mais notadamente na Europa. Como resultado, o medo voltou a rondar as portas da economia brasileira.

O Brasil apresentou uma recuperação relativamente rápida do choque de 2008, resultado, em grande parte, da combinação das políticas de renda mínima com um manejo eficiente da política de crédito, que garantiu o fortalecimento do mercado interno nacional. Hoje, diante da crise que vem afetando os países europeus e da estagnação norte-americana, o País tem apresentado considerável estabilidade nos principais indicadores econômicos. Porém o debate nacional estimulado por parte dos analistas e dos economistas brasileiros tem levantado a possibilidade de que a situação econômica venha a retroceder a qualquer momento. O foco atual das preocupações é o risco do descontrole inflacionário por conta de um governo pouco comprometido com seu combate. Contudo, através de uma análise mais atenta, pode-se verificar que, com a devida cautela de não minimizar problemas evidentes, há um exagero nas previsões mais pessimistas.

Em 2011, o Brasil crescerá acima da média mundial, como já havia ocorrido em 2010. Além disso, o País apresenta, atualmente, a menor taxa de desemprego da série histórica do IBGE após a mudança da metodologia em 2002, justamente em um momento em que esse problema assola grande parte dos países do mundo. Quanto à proteção aos mais pobres, os mais afetados pela inflação, as políticas sociais de valorização do salário mínimo do Governo fizeram com que milhões de brasileiros ascendessem socialmente. A relação dívida líquida/PIB, que vem caindo ao longo dos anos, chegando a 40,9% em 2010 — era de mais de 50% antes de 2002 —, mais o fato de se ter cumprido todas as metas de superávit primário desde o Governo Lula, não corrobora a tese de um governo perdulário.

Quando, em agosto do corrente ano, o Bacen começou a reduzir a Selic, diversos analistas e periódicos alertaram para o fato de a inflação sair de controle. Contudo o Governo teve um entendimento que considerava o impacto da economia mundial sobre a brasileira: tanto a produção industrial quanto os índices de preços e expectativas de inflação futura estavam em desaceleração. Cabe notar, ainda, que a decisão de reduzir a taxa de juros foi tomada dias após o corte de R$ 50 bilhões nos gastos governamentais, mostrando uma afinidade entre a política fiscal e a monetária que não era vista há anos. Quando o medo era de superaquecimento da economia, como no início de 2011, o crédito foi restringido. Agora, neste novo cenário mundial e brasileiro, tais restrições começam a ser retiradas.

Não se atendo a fatores de longo prazo, mais notadamente ao problema do crescente déficit de transações correntes (Carta de Conjuntura FEE, ano 20, n. 10, out./11), a tabela abaixo mostra que a economia brasileira, quando tomada no seu conjunto, apresenta indicadores que não só não destoam das principais economias mundiais, como sinalizam um cenário de estabilidade econômica. Pelo menos por enquanto, não há motivos para pesadelos.

O Brasil e o medo da inflação (e do futuro)

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=ZvOKwEUR3-g]

Compartilhe