O Brasil e a crise de crédito global

A partir de meados de julho, tornou-se evidente um fato desde há muito anunciado: a nova crise financeira global teria sua origem na expansão exacerbada do mercado imobiliário norte-americano. Créditos que alimentaram o consumo do País foram realizados pelas famílias por conta de hipotecas em condições favoráveis, efetivadas a partir de inovações financeiras que permitiam facilidades iniciais nos pagamentos das prestações e possibilitavam o posterior refinanciamento dos imóveis, supostamente a partir de uma elevação em seus preços.

As corretoras de hipotecas vendiam esses créditos aos bancos, que securitizavam essas dívidas e, posteriormente, repassavam esses títulos para bancos de investimento, que os consolidavam em um novo título — chamado Collateralized Debt Obligation (CDO) —, o qual era apontado como sem risco pelas principais agências de notação. Esse ciclo de elevação nos preços dos imóveis transbordou para aplicações de maior risco, impulsionando novamente o mercado acionário. Os CDOs — e outros títulos derivados da expansão creditícia — foram revendidos aos fundos de investimento, localizados tanto nos EUA quanto na Europa, na Ásia e na Oceania. Assim, o caráter global da crise transparece em sua dimensão geográfica, interligando diversos mercados. Ao mesmo tempo, uma inesperada relação entre os mercados de crédito de longo e de curto prazo, com a dificuldade de venda de commercial papers, devido à sua relação com aplicações em derivativos de crédito, a possibilidade de reversão das tomadas de empréstimos em yen para aplicações ao redor do mundo e a seqüência de falências em corretoras de hipotecas e fundos especulativos têm aumentado as incertezas sobre a solvência do mercado mundial de crédito e a manutenção do crescimento da economia norte-americana. A ameaça concreta de extensão da crise exigiu a intervenção dos principais bancos centrais do mundo, os mesmos que há pouco negavam qualquer possibilidade maior de crise generalizada de crédito.

A economia brasileira sempre foi tida como estando a salvo de qualquer possibilidade de crise, dado seu recente sucesso, sobretudo em seu equilíbrio externo, o qual se consubstancia na acumulação de reservas superiores a US$ 160 bilhões. Entretanto basta analisar a movimentação ocorrida, em julho, nos índices do Risco-País (medido pelo índice Emerging Markets Bond Index Plus-Brazil (EMBI+), calculado pelo Banco JP Morgan Chase) e na cotação do dólar norte- -americano para verificar-se que o Brasil, embora não seja protagonista da atual crise global de crédito, não está imune aos seus efeitos. Deve-se lembrar que uma recessão global diminui a demanda e o preço das commodities, que, até o momento, garantiram os expressivos saldos comerciais brasileiros após 2003, ao mesmo tempo em que o contágio financeiro global certamente inverterá — como já se teve amostra recentemente — o fluxo de capitais.

Caso esse cenário ruim se confirme, a desvalorização do real acarretará a volta da ameaça inflacionária e a conseqüente interrupção na queda dos juros domésticos, com reflexos negativos para o crescimento econômico brasileiro. Resta esperar que o Governo não permita, sob nenhuma hipótese, uma queda expressiva nas reservas em dólar do País, reduzindo o grau de abertura financeira e a interligação contagiosa com os países originariamente expostos à crise ao primeiro sinal de uma saída mais brusca de divisas. Caso contrário, apenas restará torcer para que a intervenção dos bancos centrais tenha sucesso.

O Brasil e a crise de crédito global

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