O binômio indústria-desenvolvimento revisitado

As tradições pré-clássicas do desenvolvimento, italiana e alemã do século XVIII, enfatizam a indústria como o setor fundamental para o desenvolvimento. Posteriormente, Kaldor e estruturalistas formularam teorias em que a indústria assume papel central como motor do crescimento das nações. Nessa perspectiva, desenvolvimento econômico requer um processo permanente de mudança estrutural em direção a atividades dinâmicas, produtoras de bens com elevado valor agregado e cuja demanda responda fortemente a alterações da renda, que apresentem retornos crescentes de escala.

O processo de transformação estrutural da economia levará à transferência intersetorial de mão de obra, impactando a economia. Em primeiro lugar, haverá o estímulo da demanda, uma vez que os trabalhadores da indústria recebem maiores salários. Em segundo, o aumento da renda dos trabalhadores alterará o padrão do consumo em favor de bens industriais, o qual incentivará a produção industrial. Por fim, o crescimento da demanda e da produção industrial, devido às economias de escala presentes no setor, engendrará o aumento da produtividade da economia. Por ser uma atividade intensiva em capital, a indústria é capaz de tornar mais produtivo cada trabalhador transferido.

Contudo, o crescimento da produtividade do trabalho pode restringir o processo de criação de empregos, determinando uma posição de equilíbrio inferior da economia (conhecida como jobless growth). O crescimento deve ser suficiente para gerar emprego e aumentar a produtividade do trabalho. Nesse sentido, políticas coordenadas são fundamentais para evitar o isolamento de atividades, intensificando-se, assim, os encadeamentos produtivos intra e
intersetoriais para potencializar o crescimento.

Nesse contexto, a Figura mostra a evolução dos índices da produção industrial e da produtividade do trabalho industrialno Brasil. Nela, constata-se a existência de uma relação positiva entre as séries ao longo do tempo. Verifica-se,sobretudo, que as variáveis apresentam uma tendência ascendente, a partir de 2002, e de estagnação acompanhada de declínio a partir de 2010.

Essa tendência descendente da produção e da produtividade industrial indica a dificuldade da economia nacional em manter taxas elevadas de crescimento. Em especial, observa-se que a produção começa a desacelerar já em 2007, antes da trajetória descendente da produtividade, que só acontece a partir de 2009. Naturalmente, isso ocorre porque a produtividade do trabalho responde positivamente ao nível de atividade econômica, porém, com certa defasagem de tempo. Essa regularidade pode ser explicada, se considerarmos a demanda como indutora do aumento da produção, gerando o aumento de produtividade em setores com economias de escala, sendo um fenômeno cumulativo e dinâmico. Desse modo, a produtividade do trabalho industrial continuou crescendo de 2007 até meados de 2008, através dos efeitos cumulativos do aumento da produção (de 2002 a 2007).

Ademais, fatores como a apreciação cambial de 2004 a meados de 2011, a crise do subprime em 2008, bem como a subsequente crise no Velho Mundo, atuaram como limitadores do crescimento industrial. Apesar da rápida recuperação da economia em 2009, a indústria não conseguiu reproduzir o desempenho do período anterior. Caso essa tendência não seja revertida, a estagnação industrial restringirá a capacidade de a economia atingir taxas de crescimento aceleradas. Assim, medidas que contemplem o incentivo da demanda e do investimento industrial serão cruciais para a retomada da atividade econômica industrial e nacional.

Fatos estilizados corroboram a tese de que a indústria é um componente central no processo de desenvolvimento. Em geral, a produção de bens manufaturados está associada com crescimento do produto e estabilidade econômica; serviços dinâmicos e produtos manufaturados estão menos propensos a terem quedas nos termos de troca; e, por fim, a indústria apresenta importante dinâmica inovativa. Nessa linha, a alteração no padrão de evolução das duas séries temporais após 2008 é preocupante, pois evidencia a queda da produção como indutora do declínio da produtividade industrial. O Governo, portanto, deveria intensificar sua política industrial e de câmbio desvalorizado, a fim de reverter essa situação e acelerar o crescimento.

O binômio indústria-desenvolvimento revisitado

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