O ajuste da indústria brasileira em 2015

A indústria de transformação brasileira vem passando por um processo de estagnação da sua produção ao longo dos últimos sete anos. Apesar do elevado crescimento observado em 2010, o fato é que a produção física industrial em 2014 encerrou 1,3% abaixo da de 2008. Esse fraco desempenho da produção resultou, nesse mesmo período, num baixo crescimento da produtividade industrial. Concomitantemente a isso, as baixas taxas de desemprego que se mantiveram até dezembro de 2014 forçaram os empresários a pagarem salários reais mais elevados aos trabalhadores. Assim, enquanto a produção se mantinha praticamente estagnada e a produtividade com baixo crescimento, tal fenômeno não ocorria com o salário real na indústria, o qual vinha numa trajetória constante de crescimento desde 2004. Esses três fatores, em conjunto, implicavam um aumento dos custos, pressionando ainda mais o índice de inflação.

A saída desse quadro implicaria, necessariamente, uma retomada da produção que levasse a um aumento da produtividade e, com isso, permitisse a continuidade da elevação do salário real. No entanto, para que isso ocorresse, far-se-ia necessária a existência de um conjunto de elementos favoráveis tanto no âmbito externo quanto no doméstico. Como tal cenário não se fez presente, o ajuste, em 2015, acabou sendo, necessariamente, recessivo.

Se, por um lado, a desaceleração do crescimento da produção industrial coincide com o desenrolar da crise econômica mundial que se iniciou em 2007-08, também é verdade que fatores de natureza interna, como a restrição ao crédito e a retomada de um novo ciclo de crescimento das taxas de juros em meados de 2013, contribuíram para agravar um quadro já desfavorável. Em 2015, o ajuste fiscal promovido tanto pelo Governo Federal quanto pelos governos estaduais, associado com a continuidade da elevação da taxa de juros, a acelerada elevação do desemprego e o recrudescimento inflacionário, contribuíram para acelerar a queda da produção, do emprego e dos salários na indústria. Assim, até setembro deste ano, a produção física da indústria de transformação brasileira havia caído 9,2% em relação ao mesmo período do ano anterior. Nesse mesmo período, o emprego industrial apresentou uma retração de 5,8%. Com isso, observou-se uma diminuição de 3,6% na produtividade, enquanto os salários reais por trabalhador apresentaram uma queda de apenas 1,0%. Assim, o ajuste que vem ocorrendo na indústria brasileira tem sido desfavorável tanto para os trabalhadores, os quais têm perdido seus empregos e visto uma deterioração do poder aquisitivo do seu salário, quanto para os empresários, que têm observado uma queda acentuada na produtividade.

Esse cenário se torna ainda mais preocupante quando se observa a dimensão da crise em setores mais dinâmicos, como, por exemplo, as indústrias de bens de capital e de bens de consumo duráveis, que, até setembro deste ano, tinham acumulado uma queda na produção física de 23,5% e 15,8% respectivamente. Já a indústria de bens de consumo não duráveis, a qual havia apresentado um crescimento de 3,7% na produção física em 2014, em 2015 acabou sucumbindo ao efeito da aceleração no crescimento do desemprego e, até setembro, havia apresentado uma retração de 9,6%.

Se essa conjuntura se mantiver no último trimestre de 2015, a produção industrial brasileira vai terminar o ano com o mesmo nível de 2005, e o emprego industrial terminará no menor nível histórico da série da Pesquisa Mensal de Emprego e Salário, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (Gráfico). Assim, o cenário atual sinaliza um ajuste de mais longo prazo quando se iniciar o processo de recuperação, uma vez que a necessidade de recuperação dos níveis de produtividade e de redução dos custos deverá implicar uma baixa absorção do emprego e também do crescimento do salário real. Por outro lado, mesmo depois de iniciada a recuperação, deverá haver uma grande defasagem, até que os investimentos sejam retomados na indústria. Dessa forma, a crise industrial, que já havia sido grande em 2014 e que se aprofundou em 2015, deverá ter impactos de longo prazo na economia brasileira. Tais fatores deverão agravar as “doenças” que vêm acumulando-se no tecido industrial brasileiro ao longo dos últimos anos, geradas pelos baixos níveis de investimentos, pelo cenário macroeconômico ainda bastante instável, pelos vários anos de desvalorização cambial e, como decorrência, de baixa competitividade internacional. Nesse contexto, não é de surpreender que mesmo a desvalorização cambial observada no último ano tenha tido efeitos imperceptíveis sobre as exportações industriais e sobre o aumento da produção doméstica.

Esse quadro de deterioração industrial irá, necessariamente, criar problemas ainda maiores para a política econômica em 2016. Caso o Governo opte pela continuidade das políticas monetária e fiscal que dominaram em 2015, poder-se-á esperar um agravamento do panorama descrito acima. Se, por um lado, é verdade que tem ocorrido uma piora nas contas públicas nos últimos anos, também é verdade que o ajuste fiscal dificilmente terá sucesso em uma economia que atravessa uma recessão tão profunda. Uma recuperação mais robusta da economia mundial poderia ser um ingrediente-chave para o início de um processo de recuperação. Mas esse cenário parece que também não está no horizonte.

grafico-drop7

Compartilhe