Mudanças na composição do PIB global no novo século

Ao se analisar a conjuntura econômica internacional neste novo século, um dos temas mais discutidos é o da suposta perda de poder relativo norte-americano e a ascensão da China ao posto de segunda maior economia do mundo e principal competidora da nação hegemônica. Este texto apresenta as principais mudanças na composição do Produto global, de forma a ilustrar tais acontecimentos.

Ao se verificarem os dados do Banco Mundial para o Produto Interno Bruto (PIB) em paridade de poder de com-pra a dólares constantes de 2005, os EUA vêm perdendo participação no Produto global, em um movimento lento e constante: em 2001, a sua fatia correspondia a 22,92%, parcela que caiu para 18,66% em 2012. No comércio internacional, segundo dados da Organização Mundial de Comércio, os EUA perderam a liderança nas exportações mundiais, posição que mantiveram durante grande parte dos anos 90, sendo ultrapassados pela Alemanha em 2003 e pela China em 2007, apenas recuperando o segundo posto em 2010, com o agravamento da crise na Europa. A interrupção na queda das exportações e a diminuição da participação norte-ameri-cana nas importações mundiais, de 18,19% para 12,31% — que, ainda assim, representa a maior parcela global —, ajudaram a reduzir o déficit em transações do País em mais da metade, chegando a -2,6% do PIB.

Porém, mesmo os dados que se apresentam como nega-tivos para a economia norte-americana denotam o seu poderio, pois, após a mais grave crise desde 1929, o País segue forte como principal economia do planeta. Após ser o epicentro da crise financeira de 2007, analistas que acreditavam no declínio da nação mais poderosa do mundo voltaram a enxergar a eminência de sua derrocada. Os dados da produção apresentam uma clara queda de poder relativo norte- -americano. Porém hegemonia é um conceito que abrange não apenas a produção, mas também questões militares e políticas, nas quais a perda de liderança norte-americana ainda não é vislumbrada. Além disso, a crise não representou nenhuma inflexão em processos já em curso, e os dados da produção não são suficientes para indicar uma mudança mais profunda no cenário mundial em curto prazo.

Quando se compara o Produto dos EUA ao de outros países e regiões de maior importância geopolítica e econô-mica, nota-se que os EUA apresentam ganhos relativos em comparação à Zona do Euro, à União Europeia e ao Japão, uma relativa estabilidade com a OCDE, “perdendo terreno” para a Ásia — região com maiores ganhos no produto glo-bal —, para os “BRICS” e para a maior parte das nações em desenvolvimento. Tais dados realçam o maior crescimento de países em desenvolvimento com relação aos desenvolvidos — neste novo século, pela primeira vez na historia do capitalismo, os primeiros acumularam uma parcela do produto maior que os segundos. Ao apresentar ganho em relação à maioria dos países desenvolvidos, os EUA mostram uma posição de fortalecimento de sua liderança perante as nações mais importantes dos antigos arranjos da economia mundial, uma clara demonstração de hegemonia.

A Europa foi a região do mundo mais afetada após a crise de 2007, e o seu Produto apresenta uma clara perda de participação na economia mundial. Em 2001, a Zona do Euro tinha um PIB equivalente a 78,71% do norte-americano, enquanto a União Europeia apresentava 107,68%, valores que se reduziram a 73,79% e 104,8%. Tais dados refletem a delicada situação do Velho Continente, ainda mais agravada na Zona do Euro, refém de seus arranjos institucionais e da austeridade. Mesmo a Alemanha, nação mais poderosa do continente e que aparentava não sofrer os graves efeitos da crise de 2007, também perdeu participação no Produto global com relação aos EUA, além de uma forte queda em sua participação mundial nas exportações: de 9,50% em 2001 para 7,64% em 2012, mostrando que sua estratégia exportadora não é imune à crise econômica de seus vizinhos. Com poucas perspectivas de mudança em médio prazo, o cenário europeu parece mesmo o de perda de importância no cenário mundial.

O continente do mundo que apresentou maiores ganhos em termos de produto foi a Ásia. Sua região mais dinâmi- ca — Leste Asiático e Pacífico — alcançou a marca de 158,33% do PIB dos EUA, e em 2012 correspondeu a 29,54% do PIB mundial, enquanto os EUA apresentaram 18,66%. A China é o país que apresenta os dados mais im-pressionantes: em 2001, o seu PIB era equivalente a 30,18% do Produto dos EUA, saltando para 79,51% em 2012. O novo gigante representa 14,83% do PIB mundial e cerca da metade do produto do continente. Nas exportações, é líder global, com uma fatia de 11,13% — em 1990, detinha ape-nas 1,83%. O seu desempenho ajudou a região a se tornar o polo produtivo mundial e alcançou uma proximidade com o Produto norte-americano há tempos não vista na economia mundial. Ao que tudo indica, a região manter-se-á em tal posto, diminuindo a importância norte-americana e europeia nos circuitos produtivos mundiais.

Enfim, a análise dos dados mostra um declínio da eco-nomia norte-americana em sua parcela no Produto mundial e uma inegável ascensão chinesa como principal polo produtor mundial, o que deve perdurar durante muitos anos. Porém, mesmo estes dados ilustram o poder da economia dos EUA, que, ainda estando em crise, cresceu mais do que a maioria das nações desenvolvidas e aumentou a distância sobre aqueles que, em tese, seriam os seus maiores adversários no cenário econômico e político global.

Mudanças na composição do PIB global no novo século

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