Mudanças estruturais e exportações gaúchas de calçados

As mudanças estruturais ocorridas na indústria calçadista internacional — induzidas pelo ajuste da esfera produtiva às novas condições de produção e pela alteração nas formas de comercialização —, por um lado, e a manutenção de taxas de juros elevadas e câmbio apreciado — para atender ao objetivo de estabilidade macroeconômica no País —, por outro, vêm colocando desafios continuados para os produtores brasileiros de calçados.

Na primeira metade da década de 90, a maior exposição da economia brasileira à concorrência externa, ao mesmo tempo em que se processavam alterações substanciais nas estruturas produtivas, comerciais e financeiras, na maioria dos países, forçou as empresas calçadistas a implantarem programas de ajuste às novas regras de concorrência internacional. Nesse processo, as empresas procuraram reduzir custos e racionalizar a produção, mediante investimentos em processos e produtos. Outra estratégia adotada pelos fabricantes de calçados do RS, que é o principal estado produtor e exportador, foi o deslocamento de plantas para a Região Nordeste do País, em busca de mão-de-obra mais barata. Desse esforço de reestruturação, aliado aos impactos positivos gerados pela estabilização monetária, resultou uma breve fase de recuperação da produção, sem, contudo, atingir os níveis observados no início da década de 90. A continuidade dessa retomada após o ajuste estrutural da indústria foi comprometida, contudo, pela manutenção da taxa de câmbio valorizada por um longo período. Como conseqüência, observaram-se quedas acentuadas na produção e nas exportações, tanto em valores  quanto em número de pares, acarretando perda de participação dos calçados gaúchos no mercado internacional e um aumento das importações de produtos de menor preço, originadas no Sudoeste Asiático. Ao longo da década de 90, esses países ampliaram substancialmente sua representatividade no mercado externo, especialmente a China, beneficiados pelo deslocamento da produção de países e regiões desenvolvidos para locais com disponibilidade de matérias-primas e mão-de-obra abundante.

A desvalorização do real em janeiro de 1999 possibilitou a retomada das exportações, que, no entanto, teve fôlego curto, visto que foi interrompida pela crise argentina e pela desaceleração da economia norte-americana, principais compradores dos calçados gaúchos. A implementação de uma estratégia de diversificação e ampliação do mercado externo em um contexto de encolhimento da demanda interna explica o crescimento das exportações em 2004, favorecido pela melhoria do preço médio do calçado. Tal situação se mantém em 2005, compensando a queda nos volumes exportados.

Os dados de exportações brasileiras de calçados em 2005 registram os efeitos do acirramento da concorrência com a  China e do real sobrevalorizado. A conjugação desses dois fatores vem amplificando as dificuldades encontradas pelos fabricantes brasileiros, que estão perdendo espaço sobretudo no segmento de calçados de preços mais baixos. As perdas são menores no segmento de preços mais elevado, como é o caso dos calçados gaúchos, cujos dados de exportação mostram um pequeno aumento em termos de valor, apesar da queda expressiva no número de pares exportados. Esse comportamento é explicado pelo aumento do preço médio do calçado comercializado, obtido pela fabricação de produtos de maior valor agregado destinados a nichos de mercado. Ou seja, o desempenho das exportações gaúchas nesse cenário desfavorável vem sendo sustentado pela diversificação de mercados e por esforços de fabricação de calçados de maior valor agregado.

Mudanças estruturais e exportações gaúchas de calçados

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