Mercado formal de trabalho do RS estagna após forte retração

Os primeiros sete meses deste ano tiveram um saldo de apenas 262 empregos adicionais no mercado de trabalho formal do Rio Grande do Sul, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho. Essa virtual estagnação representa o prolongamento — vale dizer, a incapacidade de reação — frente à severa crise econômica, cujos efeitos eclodiram, na esfera ocupacional, no ano de 2015. Nesse ano, segundo a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), também do Ministério do Trabalho, 103,3 mil postos de trabalho com registro formal foram eliminados no Estado — redução de 3,3%, que interrompeu uma trajetória de mais de 10 anos de crescimento. Entre o final de 2004 e o de 2014, o estoque de empregos formais no mercado gaúcho havia-se elevado 41,8%, com uma expansão de 916 mil postos de trabalho.

Dados da RAIS para 2016 ainda não estão disponíveis. O Caged — que guarda algumas diferenças metodológicas e não alcança a mesma cobertura, mas cujo valor como base de dados para o estudo da conjuntura do mercado formal de trabalho é consagrado — aponta que outros 53,6 mil empregos com registro formal desapareceram, no Estado, em 2016 (o que representaria cerca de 2,1% de retração, em um cálculo aproximativo que parte da RAIS do ano anterior, com algumas compatibilizações ao Caged).

É com esse pano de fundo que se aquilata o desempenho do emprego nesses primeiros sete meses de 2017: de um lado, há a frustração por ainda não haver qualquer sinal de recuperação das intensas perdas recentes; de outro, esse resultado, que beira o zero, mas se situa no lado positivo, contrasta com as retrações acumuladas, entre janeiro e julho, nos últimos dois anos: -24,4 mil em 2016 e -29,2 mil em 2015. Nos cinco anos anteriores, para que fique bem circunscrita a reversão da tendência, os saldos haviam sido largamente positivos — sempre nesse recorte dos primeiros sete meses do ano —, vindo desde os 129,2 mil de 2010 até os mais modestos 45,6 mil de 2014.

Como em qualquer totalização de frações do ciclo anual, há que se ter cuidado com os efeitos da sazonalidade, que incide de forma particular em cada atividade econômica e em cada porção do território, desaconselhando a que se tomem os resultados obtidos como tendências seguras para o médio prazo (ou para o fechamento do período). Feita essa advertência, examinam-se algumas evidências que surgem da análise do Caged para esses sete primeiros meses deste ano, no Estado. Ainda que o resultado agregado tenha sido inexpressivo, setorialmente, merece destaque a indústria de transformação (IT), que teve um saldo de 11 mil empregos adicionais no período. Nos dois anos anteriores, ela havia sido responsável por mais da metade dos saldos negativos. Essa expansão da IT em 2017 foi neutralizada por retrações em praticamente todos os outros setores, destacando-se o comércio (-6,9 mil postos) e a agropecuária (-2 mil) no período.

Dentro da IT, as atividades (Divisões CNAE) que apresentaram maior geração de ocupações formais foram a fabricação de produtos do fumo (8,4 mil) e a preparação de couros e fabricação de artefatos de couro, artigos para viagem e calçados (2,7 mil). A primeira dessas atividades exemplifica bem a referida problemática da sazonalidade: a produção de fumo e seus derivados, no Estado, concentra-se no segundo trimestre. Ainda com variações positivas significativas, podem-se citar fabricação de produtos de borracha e de material plástico e fabricação de produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos (cerca de 1,2 mil cada). Embora os serviços tenham tido resultado agregado negativo (-953 empregos), duas Divisões CNAE que integram o setor apresentaram expansão digna de nota: educação (1,7 mil) e atividades de atenção à saúde humana (1,6 mil).

A análise do número de vínculos por faixa de remuneração também chama atenção, embora se trate de um dado incompleto (nessa variável específica, diferentemente das demais, não havia, na base do Ministério, a totalização das movimentações de mão de obra informadas fora do prazo pelos estabelecimentos). A fonte indica que houve expansão relevante do número de vínculos de trabalho com remunerações na faixa de 1,01 a 1,5 salário mínimo (SM); em menor intensidade, mas também com aumento, na faixa de 0,5 a 1 SM; e ainda um pequeno aumento no contingente com rendimento até 0,5 SM. O pessoal formalmente empregado em todas as demais faixas de salário retraiu-se. Um cruzamento com a escolaridade dos trabalhadores aponta que essa tendência de retração nos estratos de remuneração mais elevada e de expansão nos de mais baixo rendimento é reconhecível independentemente do nível de instrução do indivíduo — embora a distribuição por faixa, evidentemente, se altere, à medida que avança o número de anos de estudo concluídos. Esses dados merecem maior aprofundamento analítico, mas indicam que, além do escasso fôlego para gerar saldos ocupacionais positivos, o mercado de trabalho está passando por uma forte pressão de compressão salarial, o que amplifica os efeitos adversos da recessão.

O que está claro é que o mercado formal de trabalho vive, no Estado, assim como no País, um momento de muito baixo dinamismo, na sequência de uma continuada e profunda retração do emprego, a qual, no entanto, dá sinais de ter arrefecido. Se a economia e a ocupação se preparam para iniciar proximamente um esforço de retomada; se vão permanecer por mais algum tempo derreadas e estáveis, na precária posição em que se encontram; ou se, desafortunadamente, mais perdas podem sobrevir, ainda não é seguro afirmar.

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