Mercado formal de trabalho “acusa o golpe” em todo o RS

Após uma longa sequência de desempenhos positivos — e com uma defasagem temporal que surpreendeu inúmeros analistas, vis-à-vis o desaquecimento da atividade econômica —, o mercado de trabalho internaliza as manifestações da crise e, no Rio Grande do Sul, já acumula, neste ano (de janeiro a outubro), uma significativa perda de postos de trabalho. No conjunto do Estado, o saldo de admissões menos demissões assinala a extinção de 60,3 mil vínculos formais, segundo os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

A indústria de transformação, que, nos últimos 10 anos (sempre considerados os 10 primeiros meses), só havia tido um registro negativo, bastante suave (-1,1 mil vagas), no turbulento ano de 2009, é responsável, agora, por metade dos empregos formais eliminados no mercado gaúcho (29,9 mil vagas). O comércio expulsa o segundo maior volume de trabalhadores (16,3 mil), e a terceira colocação fica com a construção civil (8,7 mil). Se tomarmos como referência (aproximativa) o estoque de empregados na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), também produzida pelo MTE, do final do ano passado, podemos afirmar que, dos principais setores de atividade, é a construção civil que sofre, em 2015, o maior encolhimento relativo (aproximadamente 6% no intervalo considerado), ao passo que a indústria de transformação vem logo a seguir, com cerca de 4%. Para o conjunto do emprego formal, esses mais de 60 mil empregos representam uma retração em torno de 2,3%.

Quando se agregam os resultados municipais conforme a divisão do RS em Regiões Funcionais (RFs), constata-se que, a despeito das diferenças de intensidade, a virada da maré que caracteriza o ano em curso se fez sentir em todo o território gaúcho. Cabe frisar que, de modo análogo, todas as RFs viram crescer seu mercado formal de trabalho em cada um dos nove anos anteriores — com a única exceção da Região 4, composta apenas pelo Corede Litoral Norte, que detém pouco mais de 2% do emprego gaúcho e sofre especial distorção por conta da sazonalidade, quando se analisa a série de janeiro a outubro.

As perdas de 2015 concentraram-se, como esperado, na RF1, que abrange a Região Metropolitana de Porto Alegre. Nela, eliminaram-se 32,2 mil postos, 53,5% do total do Estado (participação superior à dessa RF no estoque da RAIS de 2014, que se situava em 48,1%). Em termos relativos, desconsiderada a RF do Litoral, o impacto mais expressivo foi na RF3, nucleada por Caxias do Sul, segundo maior mercado formal de trabalho do Estado (14,6% do total). Ali, a eliminação de 12,2 mil empregos representa uma retração de mais de 3% relativamente ao estoque da RAIS de 2014.

Os resultados parciais de 2015 marcam a extinção, no Estado, de um número de postos bem superior ao dos gerados no mesmo período do ano passado (45,9 mil). Mais do que isso, reverte-se um movimento continuado de expansão do emprego formal: nos últimos 10 anos, o resultado mais modesto para os primeiros 10 meses do ano havia sido, justamente, o de 2014, e, o mais notável, o de 2010, quando quase 160 mil postos foram gerados, 40% dos quais na indústria de transformação. Recorrendo-se, alternativamente, ao parâmetro dos estoques das RAIS, em 31 de dezembro de cada ano (e tomando-se apenas os celetistas), o crescimento do emprego formal gaúcho, entre 2005 e 2014, foi de 40,4%, com a criação de 765,6 mil vagas. Nas regiões, a menor variação relativa foi de 31,8% na RF6, e a maior, de 53,9% na RF4 (o que confirma o efeito da sazonalidade referido acima).

A conjuntura é de recuo sobre terrenos recentemente conquistados. A duração e a severidade das perdas ainda são difíceis de antever. De qualquer modo, assim como tardou a “acusar o golpe”, o mercado de trabalho precisará de um tempo para responder positivamente à melhora do cenário econômico, quando ela der seus primeiros sinais.

grafico-drop8

Compartilhe