Mercado de trabalho gaúcho numa perspectiva de 10 anos

A divulgação, no último mês, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) referente a 2002 oportuniza uma caracterização geral do mercado de trabalho gaúcho, a qual adquire maior alcance quando se abordam seus resultados em uma perspectiva comparada. Toma-se, aqui, como parâmetro, a situação de 10 anos antes.

Nesse intervalo de tempo, a População Economicamente Ativa (PEA) cresceu 12,3%. Considerando-se que a População em Idade Ativa (PIA) — 10 anos ou mais — teve elevação significativamente superior (17,2%), a pressão que o mercado de trabalho sofreu, pelo lado da oferta de força de trabalho, foi relativamente branda. A expansão do número de postos de trabalho, todavia, mostrou-se muito mais acanhada do que a da PEA, limitando-se a 9,5%. Dessa forma, a desocupação avançou fortemente: a taxa saltou de 4,3% para 6,7%; o contingente de desocupados aumentou nada menos do que 72,9%, passando a abranger quase 400 mil indivíduos. A taxa de desocupação feminina teve comportamento ainda mais desfavorável do que a masculina, agravando o elevado diferencial de gênero preexistente.

No universo de ocupados, que teve um reforço de 474 mil indivíduos, a participação dos empregados (excetuados os domésticos) avançou quase dois pontos percentuais. Entretanto, em 2002, essa forma de inserção não representava sequer metade dos postos de trabalho do Estado. Mais importante do que isso, sua expansão relativa apoiou-se, fundamentalmente, no aumento do número de empregos sem vínculo formal: dos 329 mil postos assalariados acrescidos ao mercado de trabalho gaúcho entre 1992 e 2002, mais da metade (176 mil) não contemplou o registro em carteira de trabalho. Esse subconjunto dos empregados foi a categoria com mais expressivo ganho de participação no total de ocupados, ascendendo de 10,4% para 12,7%. O trabalho por conta própria, por sua vez, absorveu 161 mil indivíduos adicionais, passando a abarcar 22,5% dos ocupados do Estado. Dessa forma, 71% do saldo de ocupações gerado nesses 10 anos concentrou-se em duas categorias de inserção precária: assalariados sem carteira e autônomos. É importante registrar que houve, também, avanço na ponderação dos funcionários públicos estatutários e militares, bem como, em menor medida, na categoria dos empregadores — formas de inserção de melhor qualidade, mas de diminuta expressão no mercado de trabalho.

No perfil dos ocupados, é marcante a velocidade de algumas transformações, em especial o avanço da participação dos trabalhadores com 40 anos de idade ou mais e a redução do contingente nos patamares mais baixos de educação formal. Cabe destacar, no entanto, que esses dois processos espelham mudanças demográficas que extrapolam a dinâmica do mercado de trabalho: o “envelhecimento” e o avanço da escolaridade fizeram-se sentir, na população total e na PIA, com cadência praticamente idêntica à observada no conjunto dos ocupados.

Mercado de trabalho gaúcho numa

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