Investimentos chineses em expansão no Brasil e no RS

Principal país importador de produtos brasileiros, a China tornou-se uma potência global com múltiplos interesses econômicos em todos os continentes. As relações bilaterais Brasil-China intensificaram-se ao longo da primeira década dos anos 2000, em parte como consequência do aumento do intercâmbio comercial, mas também pela aproximação decorrente da mútua participação em fóruns internacionais em defesa dos interesses dos países em desenvolvimento. Desde 2010, os investimentos chineses no Brasil, que, até então, eram pouco significativos, sofreram uma expansão que traduzia a necessidade chinesa de canalizar uma parte do elevado estoque de divisas acumuladas, aprovisionar-se de ativos estratégicos no exterior e contribuir para tornar o yuan uma moeda cada vez mais relevante no contexto internacional. Ou seja, a expansão dos investimentos chineses que vivenciamos no Brasil é o reflexo de uma estratégia global.

Os dados oficiais do Banco Central do Brasil sobre o investimento externo direto (IED) da China no Brasil não conseguem captar a totalidade desses investimentos, já que as empresas chinesas costumam realizar grande parte dos seus investimentos através de terceiros países. Exemplificando: a compra de 40% das operações da espanhola Repsol no Brasil por parte da estatal chinesa Sinopec, ao preço de US$ 7 bilhões, foi registrada como um investimento de Luxemburgo, pois a operação foi canalizada através da filial luxemburguesa da empresa chinesa. A prática de utilizar paraísos fiscais é frequente entre empresas de todo o mundo, mas as empresas chinesas a utilizam mais persistentemente. Por esse motivo, as estimativas nesse artigo são realizadas com base em fontes alternativas (Comissão Econômica para América Latina, Conselho Empresarial Brasil-China, notícias de jornais nacionais e do Governo do Estado do Rio Grande do Sul).

Inicialmente, os investimentos da China no Brasil tinham por objetivo assegurar o fornecimento de recursos naturais para atender à demanda provocada pelas altas taxas de crescimento da economia chinesa. Nessa primeira onda, destacam-se os projetos de mineração, petróleo e gás, e a comercialização de commodities agrícolas. A seguir vieram os investimentos em infraestrutura, produção e distribuição de energia. Em uma terceira onda, o interesse chinês pelo mercado interno brasileiro ampliou-se para veículos, bens de capital e eletroeletrônicos.  Mais recentemente, o interesse pelo setor financeiro manifestou-se pelo ingresso de investimentos de três entre os quatro principais bancos estatais da China. Por último, com o agravamento da crise brasileira, o foco voltou-se novamente para a infraestrutura, com destaque para a geração e a transmissão de energia elétrica.

Conforme os dados da American Enterprise Institute e da Heritage Foundation[1], dos US$ 52,1 bilhões de investimentos efetivados pela China no Brasil no período 2005-16, os mais vultosos foram no setor de energia (US$ 38,7 bilhões), representando 74% do total, seguido pelo setor de metais (US$ 4,6 bilhões), o financeiro (US$ 2,1 bilhões) e a agricultura (US$ 1,9 bilhão), dentre outros. No mesmo período, o Brasil ficou em quarto lugar entre os países receptores de investimentos chineses, atrás dos Estados Unidos, da Austrália e do Canadá, mas na frente do Reino Unido e da Rússia. No entanto, a participação do Brasil representou apenas 5,3% do total, dada a diversidade de países receptores.

Quanto ao modo de entrada das empresas chinesas no Brasil, observa-se uma tendência à redução de projetos greenfield, ou seja, investimentos nos quais novas operações são estabelecidas no país de destino, um aumento de fusões e aquisições (F&A) e, em menor escala, de joint-ventures. Uma explicação plausível está relacionada com o aproveitamento de empresas já instaladas no país, com conhecimento do mercado, leis e regulamentações, bem como possuidoras de uma cultura organizacional adaptada às condições locais. A partir de 2014, a China intensificou sua entrada no Brasil através de F&A de empresas estrangeiras ou nacionais já atuantes no País. Do ponto de vista do desenvolvimento brasileiro, o investimento greenfield é muito mais importante, porque aumenta o estoque de capital e garante a geração de empregos e renda. Nas F&A, o investimento já existente troca de mãos e muda o controle da empresa. O benefício para o País é menos previsível e decorre de eventuais investimentos posteriores à aquisição e da transferência de tecnologia. No caso da privatização de uma estatal ou de uma empresa de capital nacional, o controle passa para a estrangeira que a comprou, o que representa a desnacionalização do empreendimento. As empresas públicas foram capitalizadas pelo Estado com recursos públicos dos contribuintes e foram criadas como instrumento de desenvolvimento do País, no entanto, ao serem compradas por empresas entrangeiras, assiste-se à perda de controle de setores estratégicos da economia nacional e regional. Paradoxalmente, enquanto o rationale das concessões e privatizações do governo do Presidente Michel Temer é o de enxugar o Estado e arrecadar recursos para aliviar as contas públicas, a estratégia chinesa é de apoiar, principalmente, suas empresas públicas e as de economia mista, com o auxílio de bancos públicos e fundos públicos e/ou privados para a compra de ativos brasileiros a preços aviltados.

Tendo em vista a retração do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no financiamento de grandes projetos, os bancos e fundos chineses transformaram-se nos principais financiadores de projetos chineses no Brasil. Esse é o caso do novo fundo anunciado no mês de novembro de 2017, que disponibiliza US$ 3 bilhões, com a participação do governo chinês e do grupo Huayang, exclusivamente para financiar empreendimentos no Brasil ou de empresas brasileiras na China.

No Rio Grande do Sul, também se fez sentir o interesse dos investidores chineses na área de energia. A estatal chinesa State Grid, ao assumir em 2016 o controle do grupo CPFL — maior empresa privada do setor e proprietária da RGE e da AES Sul (RGE Sul) — passou a controlar 62% da distribuição de energia no Estado e o atendimento a 58% das unidades consumidoras. Através do controle da CPFL, a State Grid também passou a ser majoritária em quatro hidrelétricas no Estado, ficou com uma participação minoritária em uma quinta e uma participação no complexo eólico em Palmares do Sul. Adicionalmente, o acordo assinado no final de 2017 entre a Eletrobras, a Eletrosul, a empresa chinesa Shanghai Electric e o Clai Fund, o fundo chinês para investimentos na América Latina, prevê a construção, no RS, de 1,9 mil quilômetros de linhas de transmissão, oito novas subestações e a ampliação de 13 subestações, a um custo de, aproximadamente, R$ 3,9 bilhões, sob a liderança da Shanghai Electric. Além disso, a renomada China Three Gorges, proprietária da hidrelétrica Três Gargantas, na China, ao adquirir, no Brasil, 49% de 11 parques eólicos da portuguesa EDP Renováveis, ficou com uma participação no Parque Eólico Cidreira 1 de Tramandaí. Em decorrência dessa penetração na matriz energética do Estado, a transmissão e a geração de energia no RS fica cada vez mais dependente de decisões que emanam de interesses externos. Por outra parte, grandes grupos chineses fizeram uma série de aquisições de empresas globais com atuação no RS, de modo que passaram a controlar a fábrica de pneus Pirelli, instalada em Gravataí, e a fábrica de equipamentos de climatização Carrier, em Canoas. O apetite chinês por ativos no setor de energia leva a crer que são fortes candidatos para uma eventual venda da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), bem como potenciais investidores na implantação de um polo carboquímico. É lamentável que o patrimônio dos brasileiros e dos gaúchos em setores estratégicos como a energia seja repassado a investidores externos sem considerar como essa perda do controle afetará o desenvolvimento nacional e regional.

[1]   THE AMERICAN ENTERPRISE INSTITUTE AND THE HERITAGE FOUNDATION. China Global Investment Tracker. 2017. Disponível em: <http://www.aei.org/china-global-investment-tracker/>. Acesso em: 18 dez. 2017.

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