Inovação nas indústrias brasileira e gaúcha: há o que celebrar?

Os últimos dados da Pesquisa de Inovação (Pintec) de 2014, referente ao triênio 2012-14, divulgados recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam poucos avanços em termos de desempenho e esforço inovativo por parte das empresas brasileiras e gaúchas. As informações, relacionadas às atividades de inovação desenvolvidas em empresas brasileiras, dos setores industrial, de eletricidade e gás, e de alguns serviços selecionados (como os de P&D), foram coletadas em uma amostra de 17.171 empresas, representativa de um universo de 132.529 firmas com 10 trabalhadores ou mais, sendo a maioria delas pertencentes ao setor industrial.

No Brasil, a taxa de inovação da indústria (extrativa e de transformação) foi de 36,4%, valor este não muito acima do computado no triênio anterior (2009-11), de 35,6%. Isso significa que pouco mais de um terço das empresas industriais realizaram algum tipo de aprimoramento substancial e/ou criaram um novo produto e/ou processo produtivo. No Rio Grande do Sul, a taxa foi superior à brasileira, 41,7%. Porém, em comparação ao período anterior, houve uma redução (42,2%), e o Estado perdeu uma posição na classificação nacional, passando do segundo para o terceiro lugar. Vale frisar que tanto o Brasil como o RS ainda não recuperaram os percentuais da Pintec 2008 (triênio 2006-08), quando a taxa de inovação na indústria atingiu os melhores níveis da série: 38,1% e 44,1% respectivamente.

Em 2014, as taxas de intensidade inovativa — proporção dos gastos das empresas com atividades de inovação em relação à receita líquida de vendas — também se reduziram no Brasil e em vários estados, a exemplo do RS. Na indústria brasileira, foi de 2,1%, enquanto, em 2011, alcançou 2,4%. No RS, a diminuição foi menor, passando do patamar de 2,2% para 2,1%.

Outro ponto sensível foi a inexistência ou o baixo grau de relevância imputado pelas empresas às ações de maior impacto de difusão e de criação inventiva. Como no triênio passado, as atividades internas em P&D, a aquisição externa de P&D, a aquisição de outros conhecimentos externos e a introdução de inovações tecnológicas no mercado representaram uma parte diminuta das ações executadas. Em oposição, prevaleceu, entre as ações pontuadas como de alta importância, a aquisição de máquinas e equipamentos (54,0% no Brasil e 59,6% no RS). A alta valoração conferida a essas aquisições pode revelar limites no potencial de geração de inovações próprias e recrudescer a dependência tecnológica externa.

A não realização ou a baixa relevância atribuídas às ações inovativas mais robustas dificultam o potencial de criação de novos produtos e/ou processos. Cotejando os dois últimos triênios, no Brasil, o lançamento de novos produtos e novos processos para o mercado nacional ficou estável: nos produtos, passou de 3,7% para 3,8%; e, nos processos, elevou-se de 2,1% para 2,6%. No Estado, os indicadores foram mais favoráveis: nos produtos, ocorreu um acréscimo de 5,5% para 6,3%; e, nos processos, de 2,3% para 3,2%. De fato, ao se examinar a série da pesquisa, constata-se que as empresas industriais gaúchas, em comparação com a média das brasileiras, conseguem obter melhores resultados nas suas atividades de inovação.

Em relação ao número de profissionais inseridos em atividades de P&D, não foram observadas grandes mudanças. Em 2014, na média nacional, 1% da mão de obra industrial esteve alocada em ações de P&D, ao passo que, em 2011, essa participação foi de 0,9%. Já no RS, embora a fração tenha sido semelhante, 1,2%, houve uma redução no número absoluto de pessoas ocupadas em funções de P&D. Nessas atividades, mais da metade dos profissionais são pesquisadores; ou seja, envolvem-se na concepção e/ou na criação de novos conhecimentos técnicos, produtos, processos, métodos e sistemas e na gestão dos projetos. No Brasil, 7,9% desses pesquisadores são pós-graduados. No RS, essa proporção é um pouco inferior, 6,5%. Um dado positivo para o Estado foi que, na comparação com 2011, houve um crescimento de 2,6 pontos percentuais, o que permitiu recuperar o nível de 2008 (6,5%).

Em linhas gerais, o panorama desenhado pela Pintec 2014 caracteriza-se pela estabilidade dos principais indicadores de inovação. Pode-se comemorar? Por um lado, sim, se se considerar que os níveis desses indicadores se mantiveram, apesar do cenário econômico adverso. Particularmente no País, deve-se ter em conta também os efeitos da desaceleração econômica a partir de 2014 e o período da coleta das informações da pesquisa (julho de 2015 a agosto de 2016), que transcorreu num contexto bastante atribulado nos campos econômico e político.

Por outro lado, para os próximos anos, os desafios serão enormes vis-à-vis os efeitos do ajuste fiscal, que muito provavelmente penalizarão áreas importantes para o desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação (CT&I) no País e no Estado. A aposta deve centrar-se no aprimoramento e no monitoramento das políticas de CT&I. Um exitoso exemplo de acompanhamento de ações de CT&I foi o estudo da FEE, Ciência, Tecnologia e Inovação no Rio Grande do Sul, publicado em 2014. Além do rico acervo estatístico sobre o tema, a análise permitiu identificar fragilidades no sistema de inovação gaúcho, como o baixo esforço inovativo das empresas industriais gaúchas e os insuficientes dispêndios públicos em atividades de C&T.

Como citar:

SPEROTTO, Fernanda Queiroz. "Inovação nas indústrias brasileira e gaúcha: há o que celebrar?," em Carta de Conjuntura FEE. [visto em 28 de junho de 2017], disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/inovacao-nas-industrias-brasileira-e-gaucha-ha-o-que-celebrar/>.

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