Inovação inclusiva: o que é e por que é importante falar nisso?

Parcela dos principais especialistas nos estudos sobre inovação e mudanças tecnológicas vem apontando importantes transformações que, provavelmente, ocorrerão nos próximos anos. Fala-se na aproximação de uma nova revolução tecnológica, talvez, no campo das biotecnologias, das nanotecnologias, da bioeletrônica, das tecnologias “verdes” ou “limpas” (energias renováveis, eficiência energética, etc.), ou de alguma combinação dessas.

Alguns países, nos seus setores público e privado, vêm desenvolvendo pesquisas com o objetivo de “chegar à frente” dos demais e, portanto, aproveitar melhor os benefícios iniciais de um novo sistema tecnológico. As regiões ou nações que almejam tais benefícios devem investir na geração de inovações radicais (alta tecnologia) e, igualmente, na inclusão social e tecnológica de segmentos consideráveis de suas populações. Neste último aspecto, como mostra a história das tecnologias no mundo, há, em geral, juntamente com o surgimento de importantes mudanças tecnológicas, um grau considerável de inclusão social e econômica de pessoas com baixos rendimentos. Isso acontece, basicamente, porque há um aumento do mercado consumidor em função da própria nova tecnologia oferecida via mercado, sendo essa uma condição necessária para o seu sucesso econômico.

Entretanto, diferentemente das grandes mudanças tecnológicas do passado, percebe-se hoje que há toda uma gama de possibilidades de criação de inovações tecnológicas a partir das pessoas comuns, usuárias das mesmas. Nesse sentido, nos últimos 10 anos, alguns pesquisadores das inovações vêm utilizando o conceito de inovação inclusiva. As inovações inclusivas são aquelas orientadas para a geração de novos produtos (bens ou serviços) e/ou de processos produtivos para as necessidades de estratos da população de baixa renda, inclusive aqueles com baixa educação formal, e apoiadas por governos, empresas e organizações não governamentais, dentre outras.

Essas inovações podem ser de dois tipos: por inclusão de produto, quando os pobres têm acesso a uma inovação sem participar de sua criação; ou por inclusão em processo, quando há a participação da comunidade pobre diretamente no projeto e/ou no desenvolvimento de uma inovação.

O primeiro tipo, inclusão de produto, observa-se, por exemplo, no caso da chamada Bici-lavadora desenvolvida por um projeto universitário nos EUA e que consiste em uma máquina de lavar portátil movida a pedal, de baixo custo e não dependente de eletricidade. Inserem-se também nessa categoria os diversos benefícios resultantes do uso de tecnologias de informação e de comunicação. Pode-se, assim, referir o Quênia, com a oferta de telefonia móvel com aplicativos para o desenvolvimento rural, melhorando o acesso à informação (de mercado, clima, pragas, etc.), à extensão rural e às redes de distribuição.

Quanto ao outro tipo, por inclusão em processo, mais complexo e de difícil identificação, há evidências de seu desenvolvimento em algumas ações estatais na China e na Índia. Cabe citar, por exemplo, o apoio à criação de start-ups (empresas em nichos específicos de mercado) de agricultores.

Em diversas partes do mundo, pode-se ver um crescente engajamento de diferentes tipos de agentes na promoção das inovações inclusivas: organizações internacionais, como o Banco Mundial e a Organização Para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE); governos nacionais, a exemplo dos da China e da Índia; e, mesmo, grandes empresas, como a anglo-holandesa Unilever, a indiana Tata e a norte-americana Microsoft. Percebe-se também um aumento do interesse acadêmico nos estudos sobre essas inovações em várias universidades e centros de pesquisa, com o surgimento de grupos de pesquisa, de workshops e de números especiais sobre o tema em periódicos científicos.

Os Governos da China e da Índia vêm fomentando verdadeiros sistemas nacionais e regionais de estímulo à inovação e ao desenvolvimento inclusivo por meio de conselhos de inovação, de fundos de inovação inclusiva (com investimentos dos setores público e privado), de clusters de inovação (universidades, institutos de pesquisa, agências de desenvolvimento regionais, etc.), dentre outras iniciativas. No setor privado, algumas empresas, sobretudo multinacionais, veem a inovação inclusiva como uma potencial e lucrativa oportunidade de negócios nos próximos anos, principalmente no sentido da criação de produtos para novos mercados consumidores.

No Brasil, esse modelo de inclusão no campo das inovações é pouco utilizado, e não há uma política sistemática e abrangente, como na China e na Índia, que indique algum avanço significativo no curto prazo. Apesar disso, existem algumas ações, pontuais, é verdade, que devem ser saudadas e ampliadas. É o caso do Banco de Tecnologias Sociais, uma base de dados que reúne experiências de tecnologias sociais (produtos, técnicas e metodologias) desenvolvidas por comunidades espalhadas pelo País, iniciativa esta sustentada pela Fundação Banco do Brasil.

Dentro dessa temática, alguns estudiosos apontam uma gama de possibilidades de desenvolvimento inclusivo nas cidades e no campo, o que se vem chamando de empreendedorismo emergente. Esses empreendimentos apresentam-se nos lugares mais improváveis, como nas favelas, a partir de experimentações inovadoras de negócios e de soluções aos problemas locais. Tais fenômenos são observados em cidades de países mais avançados econômica e tecnologicamente — como Londres e Paris — e naquelas de nações menos desenvolvidas — como Mumbai, Rio de Janeiro e Nairóbi. Pequenos negócios de produção têxtil, gastronomia e serviços dos mais variados e inéditos representam alguns dos segmentos em expansão.

Assim, a perspectiva das inovações inclusivas em empreendimentos nas regiões pobres do Brasil, tanto no campo como na cidade, abre um grande leque de possibilidades de desenvolvimento econômico e social. Nessa direção, o Rio Grande do Sul poderia aproveitar as oportunidades locais. Contudo, tais possibilidades dependem de diversos fatores, tanto no nível estadual quanto no nacional. Entre os principais, está a valorização da ciência e da tecnologia por meio das universidades e das instituições de pesquisa, com envolvimento de empresas e da sociedade em geral, além, é óbvio, do papel do Estado (nacional e gaúcho) como promotor e executor de ações e de infraestruturas necessárias para a efetivação dos processos de inovações técnicas e inclusivas. Em tudo isso, ressalta-se um atributo muito próprio das regiões mais inovadoras no mundo, o estímulo à criatividade em todos os estratos da sociedade.

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