Inflação, valorização monetária e crise: as lições que vêm dos EUA, da Europa e da China

A hegemonia política pressupõe uma subordinação que é, pelo menos em parte, consentida. E uma dominação só é efetivamente consentida quando ela traz progresso para o dominado, capacitando-o à autonomização. A verdadeira hegemonia promove, pois, a sua crise. E, quando a crise se impõe, só sobra a dominação sem máscaras. Os que se surpreendem com a crescente displicência dos EUA para com os interesses da periferia ainda não se conscientizaram do tamanho de sua crise. O cobertor fiscal norte-americano já está tão curto que não dá sequer para manter o padrão de vida de sua classe trabalhadora. Como se surpreender que eles não possam mais exportar benefícios?

Incrível é que os EUA tenham conseguido impor suas regras até aqui. A revalorização do dólar ao longo dos anos 90 ampliou o poder de compra norte-americano, via barateamento dos importados, e viabilizou o que parecia impossível: consumismo e excesso de poupança financeira. Foi o que alimentou a loucura da Bolsa dos anos 90 e a recente loucura imobiliária nos EUA. Enquanto a “pirâmide” funcionava, todos acreditavam estar mais ricos e consumiam “por conta” tudo o que os chineses produziam.

A China vendia seus produtos intensivos em mão de obra a preços ínfimos, sustentando sua competitividade na desvalorização deliberada de sua moeda (o RMB) frente ao dólar. Com o estouro da bolha, os EUA precisam desvalorizar o dólar e demonizam a “ditadura chinesa” por administrar o seu câmbio, mantendo o RMB barato.

Obedientes são a Europa e o Brasil, que fazem a política dos EUA, valorizando suas moedas e assumindo o ônus da depreciação do dólar. A China é o filho rebelde. Ao contrário do Japão — que concordou em valorizar o yen em 200% frente ao dólar, entre 1985 e 1990, e até hoje paga o preço! —, a China não se deixa enquadrar. Tal como se vê na tabela, entre 2002 e 2010, o RMB foi a moeda que menos se valorizou frente ao dólar. Nesses nove anos, a China cresceu 150% (com inflação de 23%); o Brasil, 40% (com 78,28% de inflação); a Grécia, 21% (35% de inflação); e a Itália, menos de 1% (com 22% de inflação).

Os diferenciais de inflação no interior da Europa só podem surpreender aqueles que acreditam que a inflação é função da (e pode ser controlada pela) política monetária, unificada pelo Banco Central Europeu desde 2002. Como se pode observar, a inflação acumulada pela Grécia em nove anos de euro foi 20% superior à alemã. E a inflação chinesa foi similar à italiana, a despeito de a China haver crescido 200 vezes mais. Por quê?

A unificação econômica europeia levou a uma nova divisão do trabalho entre o núcleo industrial e a periferia na Zona do Euro. A indústria de transformação intensiva em capital e tecnologia e as commodities (importadas por portos e sistemas logísticos e de distribuição do Mar do Norte) ficaram sob o controle dos ricos, enquanto as periferias mediterrânica e atlântica se especializavam em serviços (com ênfase no eixo turismo-gastronomia) e construção civil.

O resultado aparece na evolução do saldo da balança de transações correntes. Enquanto Alemanha, Holanda e China acumulam saldos positivos e crescentes, todos os demais acumulam saldos negativos.

Quando os países periféricos europeus abriram mão de sua autonomia cambial, os apologetas da nova ordem anunciavam uma redivisão pós-moderna do trabalho: os mediterrânicos e os atlânticos assumiam suas vantagens de prestadores de serviços, enquanto os ricos buscavam salvar a sua tradicional hegemonia industrial. De fato, sobrava para a periferia aquilo que escapava à pressão competitiva do câmbio por não se poder importar: os serviços e os imóveis. O resultado foi a exponenciação da valorização monetária do euro nos países de maior inflação, aprofundando a exposição competitiva de sua indústria, o que os envolveu num “redemoinho vicioso”.

Nem os EUA conseguem sustentar uma economia movida por déficits crescentes em suas contas externas, explosão de consumo e investimento em imóveis. Em 2008, entrou em crise. E, desde então, vem aprofundando os esforços para valorizar as demais moedas frente ao dólar. A Grécia recusou-se a ver a crise que se anunciava pela hipervalorização de sua moeda e caiu no abismo.

Mas nem mesmo a Grécia foi tão longe quanto o Brasil. De 2002 a 2010, a valorização nominal do real foi de 66%. Mas, como a inflação brasileira é muito superior à norte-americana, a valorização real nesse período foi de 93%. E isso não é tudo: 2002 foi um ano eleitoral, e o real desvalorizou-se por um ataque especulativo. Se se toma a dinâmica entre 2003 e 2011, a valorização real do real foi de 191%, similar à valorização do yen no final dos 80, que pôs o Japão em crise. Como o Brasil conseguiu essa proeza? Abrindo mão de qualquer política de controle de preços a partir da defesa e do aprofundamento da concorrência interna (como faz a China) e entregando-se integralmente à âncora monetário-cambial. Mas, como a inflação é capitaneada pelos serviços, a depressão dos preços dos importados não a afeta, e ela cede pouco. Até quando a indústria aguentará antes de o Brasil virar a Grécia da vez?

Inflação, valorização monetária e crise as lições que vêm

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