Inflação e juros: o retorno da retórica

A partir do segundo semestre de 2012, a inflação brasileira voltou a entrar numa trajetória ascendente. Como resultado, em março de 2013 a variação acumulada em 12 meses medida pelo IPCA (6,59%) superou o teto máximo estipulado pelo Banco Central (Bacen). Tal fato foi o suficiente para que, em sua reunião de abril, o Comitê de Política Monetária (Copom) elevasse a taxa Selic em 0,25%.

Apesar de, no discurso oficial, a taxa de juros ser o instrumento adequado para controlar a inflação, através do seu impacto sobre a demanda agregada, são diversos os argumentos que contrariam essa lógica no atual contexto das economias brasileira e mundial. Em primeiro lugar, a inflação tem sido puxada primordialmente pelo crescimento dos preços dos bens não duráveis e dos serviços, os quais, em conjunto, representam cerca de 56,0% do IPCA. No acumulado em 12 meses, os primeiros cresceram 13,2%, enquanto os serviços, 8,4%. No que se refere aos bens não duráveis, o principal determinante do crescimento de seus preços foi o choque de oferta verificado em 2012, essencialmente na produção agrícola. O aumento da Selic não terá por efeito reduzir a demanda desses bens, e, muito provavelmente, terá um efeito nulo sobre a demanda de bens duráveis e semiduráveis, os quais tem tido um crescimento dentro das metas estipulados pelo Bacen.

Já em relação ao crescimento dos preços dos serviços, é preciso considerar que esse fenômeno é reflexo de um processo de ajuste estrutural que vem ocorrendo na economia brasileira, que levou as taxas de desemprego para os menores patamares já verificados no País. A escassez de mão de obra ocupada nessas atividades, associada ao crescimento econômico, e, ainda, ao fato de esses serviços serem não comercializáveis, acaba resultando no crescimento de seus preços. Caso o crescimento econômico se mantenha nos próximos anos, o País deverá continuar convivendo com um crescimento dos preços dos serviços acima da média inflacionária. Somente uma desaceleração acentuada da atividade econômica poderia reduzir esse componente da inflação.

Em terceiro lugar, é preciso considerar o efeito da desvalorização cambial verificada em 2012. Entre os meses de fevereiro e dezembro, a moeda nacional sofreu uma desvalorização de aproximadamente 21.0%. Com a taxa atual estabilizada em torno de R$ 2,00, associada com o nível de reservas em posse do Bacen e com as baixas taxas de juros internacionais, uma nova desvalorização desse patamar somente ocorreria se fosse por determinação da política econômica. Um aumento das taxas de juros domésticas poderia, via sua influência no fluxo de capital, afetar a inflação, no caso de uma fuga acentuada de capitais da economia brasileira. Até o momento, nem tal fuga tem ocorrido e tampouco o Governo brasileiro parece querer promover uma nova desvalorização da moeda nacional.

Finalmente, é importante considerar que o aumento da Selic pode favorecer uma entrada de capitais no País, gerando uma valorização do real. Esse efeito seria tão mais intenso quando se considera o contexto de excessiva liquidez mundial provocada pela política monetária norteamericana e, mais recentemente, pela japonesa, associada com as baixas taxas de juros nas maiores economias do mundo. A valorização da moeda nacional, embora possa contribuir para o controle inflacionário, teria consequências perniciosas sobre a competividade da indústria nacional, a qual vem cambaleando nos últimos anos. A proposta do Governo Dilma de estimular a competitividade industrial é incompatível com o aumento da Selic.

Quais são as perspectivas? Como tem sido costumeiramente feito em diversos tipos de análises, a inflação é considerada pontualmente, na sua variação mês a mês ou ainda no fato de a mesma ter ultrapassado o limite máximo da meta. No entanto, um aspecto que muitas vezes é considerado marginalmente é o fato de que um novo choque de oferta e uma nova desvalorização cambial não continuarão operando em 2013, o que já tem levado à desaceleração da inflação. Essa perspectiva aparece não só dentro das estimativas do Bacen como também nas análises mais conservadoras.

Ainda resta a questão de quantos pontos percentuais de aumento da Selic serão necessários para reduzir a inflação. Como tem sido advertido por diversos economistas, a política monetária está longe de ser uma ciência exata, cujos parâmetros possam ser estimados por vetores autorregressivos com escolha arbitrária de variáveis. Ela é um valioso instrumento de administração da economia, mas deve ser considerada dentro de um contexto nacional e mundial. Acima de tudo, é forçoso reconhecer que, tão importante quanto o controle inflacionário, também o foram a redução da taxa de juros para níveis próximos dos internacionais e a conquista de um patamar reduzido de desemprego. Abrir mão dessas conquistas, num cenário de grande instabilidade internacional e com resultados incertos sobre a inflação é, decididamente, um grande equívoco.

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