Indústrias brasileira e gaúcha: que recuperação é essa?

Em 2013, a indústria brasileira iniciou um movimento de queda que alcançou sua menor taxa anualizada em janeiro de 2016 (-13,4%), em relação a igual acumulado do ano anterior. Desde então, iniciou-se uma branda recuperação, e, em setembro de 2017, houve a sinalização do primeiro resultado positivo (0,5%). No período nov./16-nov./17, essa taxa de crescimento passou de -7,3% para 2,2%, obtendo-se um ganho de 9,5 pontos percentuais. Em dez./17, a tendência de recuperação manteve-se, sendo registrada uma taxa de 2,5% (informação de dezembro disponível apenas para o Brasil). No período referido, o Rio Grande do Sul apresentou a mesma tendência positiva com taxas superiores às brasileiras, mas, a partir de out./17, o Brasil ultrapassou os resultados estaduais (ver gráfico).

Uma análise qualitativa desse desempenho requer a decomposição do agregado indústria geral nos dois grandes grupos que o compõem (indústria de transformação e extrativa mineral), sendo que essa informação desagregada é disponível apenas para o Brasil (IBGE/PIM). Entre dez./16 e dez./17, a indústria de transformação brasileira passou de -6,0% para 2,2%, uma variação de 8,2 pontos percentuais. Já a indústria extrativa mineral evoluiu de -9,4% para 4,6%, uma variação positiva de 14 pontos percentuais. Ainda que o peso da extração mineral sobre o total da produção industrial seja muito inferior ao da indústria de transformação, chama a atenção o crescimento que aquela vem obtendo na última década em relação ao grupo de atividades de transformação.

Na indústria de transformação brasileira, em nov./17, os melhores resultados foram registrados nas atividades produtoras de equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (20,2%), fumo (17,6%) e veículos automotores, reboques e carrocerias (16,7%). O intenso crescimento de equipamentos de informática reflete o aquecimento do mercado doméstico por produtos eletrônicos em consonância com a atual tendência mundial. Porém, no Brasil, essa atividade possui um menor efeito multiplicador, uma vez que uma parcela muito significativa de componentes eletrônicos é importada, sobretudo aqueles mais intensos em tecnologia. A indústria de fumo, por sua vez, tem como base de comparação um período de forte queda, causada por problemas climáticos que reduziram a oferta de matéria-prima para processamento em 2016, o que requer uma relativização do resultado alcançado em 2017. A produção de veículos automotores foi favorecida por certo aquecimento do mercado doméstico sob possível influência da queda das taxas de juros e pela liberação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) no segundo trimestre de 2017. Além disso, a expansão das vendas externas foi muito significativa, devido à recuperação do mercado da Argentina, principal mercado externo de autoveículos, bem como aos recentes acordos comerciais, como é o caso da Colômbia.

Os piores resultados foram registrados por fabricação de máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-4,2%), fabricação de coque, de produtos derivados do petróleo e de biocombustíveis (-5,3%) e fabricação de produtos farmoquímicos e farmacêuticos (-6,5%). A indústria de outros equipamentos de transporte, exceto veículos automotores (-11,9%) é bastante diversificada e inclui muitas atividades classificadas como alta e média-alta intensidade tecnológica para o contexto da indústria brasileira. O primeiro item citado abarca a fabricação de componentes e equipamentos destinados à geração e à distribuição de energia elétrica, cabos de fibra ótica, peças para máquinas e equipamentos, dentre outros. Liga-se, portanto, à construção de bens que fazem parte das novas tecnologias de informação e telecomunicação (TICs) e à transmissão de energia, ou seja, bens de alta e média-alta tecnologia. O segundo grupo, cujo principal valor reside na atividade das refinarias de petróleo acumulou prejuízos nos últimos anos, em decorrência de várias razões. Por um lado, foi afetado pela queda do preço internacional do petróleo, assim como pela política de preços inferiores aos preços internacionais, praticada em 2013 no mercado interno, com o intuito de manter a inflação baixa. Também é importante lembrar que a Petrobras foi o principal foco da crise institucional e de desestruturação das estatais que hoje abala a economia brasileira. A modificação recente da legislação relativa ao controle da Petrobras, das reservas de petróleo e do pré-sal contribuiu para os resultados negativos da produção de petróleo e de produtos petroquímicos. O conjunto de problemas enfrentados pela Petrobras repercutiu diretamente sobre seus fornecedores, em particular os produtores de plataformas marítimas, bem como provocou impactos negativos sobre sua capacidade de ser utilizada como instrumento de desenvolvimento de sua cadeia produtiva no Brasil, sobretudo em termos tecnológicos e de estímulo à modernização e à inovação dos fornecedores. Além disso, vem implicando a perda de empregos altamente qualificados. Pode-se supor que os problemas enfrentados pela empresa tenham influenciado também a queda da atividade de outros equipamentos de transporte, que abrange, dentre outros, a produção de embarcações e estruturas flutuantes.

No RS, conforme a taxa acumulada nos últimos 12 meses até nov./17, os melhores desempenhos foram alcançados por fabricação de produtos do fumo, que passou de -30,1% (nov./2016) para 33% (nov./2017), afirmando-se como o principal responsável pelo resultado ainda positivo da indústria gaúcha. Seguem fabricação de produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos (de -5,3% para 9,4%), fabricação de bebidas (de -11,5% para 6%), fabricação de produtos de borracha e de material plástico (de -8,5% para 5,8%) e metalurgia (de -1,1% para 3,1%). Também apresentaram resultados positivos, porém muito próximos da média da indústria de transformação, as atividades de outros produtos químicos, minerais não metálicos e máquinas e equipamentos. A indústria gaúcha de veículos automotores, reboques e carrocerias cresceu apenas 1% contra os 16,7% obtidos no Brasil.

Os piores resultados ocorreram em fabricação de celulose, papel e produtos de papel (40,3% para -15,7%) influenciados pela interrupção da produção de uma das plantas da Celulose Riograndense, de fevereiro a novembro do ano anterior, devido a danos sofridos em uma das caldeiras. Soma-se a isso a fraca demanda internacional, uma vez que o RS exporta cerca de 90% de sua produção. Seguindo o mesmo fraco desempenho brasileiro, e pelas mesmas razões, fabricação de coque, de produtos derivados do petróleo e de biocombustíveis passaram de -10,1% para -8,2%. Acrescente-se que o RS foi particularmente atingido pela crise gerada na Petrobras, que interrompeu sua política de utilização de fornecedores brasileiros, atingindo diretamente o Polo Naval de Rio Grande, que, desde dezembro de 2016, vem fechando empresas e demitindo trabalhadores. As indústrias gaúchas de calçados e de móveis, duas atividades tradicionais e com grande capacidade de absorção de mão de obra, também obtiveram resultados negativos, embora menos acentuados do que as citadas anteriormente.

Compartilhe