Indústria gaúcha: duas ou três coisas que (acho que) sei dela

Historicamente, o Produto Interno Bruto (PIB) do Rio Grande do Sul tem ocupado a quarta posição no ranking dos estados brasileiros. Ainda assim, tem sido recorrente o debate sobre a suposta “crise da economia gaúcha”. A recente revisão das contas regionais trouxe maior intensidade a essa discussão, principalmente no que se refere à participação da indústria estadual no parque industrial brasileiro. Com efeito, a nova série de dados evidenciou que: (a) a participação da indústria de transformação gaúcha na nacional era menor do que se supunha; (b) a partir de 2005, transparece, de maneira nítida, uma tendência declinante nessa participação.

Como já referido, esse não é um debate novo no cenário rio-grandense. Um marco característico do mesmo pode ser encontrado na segunda metade dos anos 50, quando o País experimentava um ambiente de grande euforia com o Governo JK e sua proposta de “50 anos em cinco”. Embalado pela construção de Brasília e pela implantação da indústria automobilística, o clima de otimismo estendia-se também para as artes, através da afirmação do Cinema Novo e da chamada Bossa Nova. Ao mesmo tempo, o Brasil ganhava, com enorme repercussão, o seu primeiro título de campeão mundial de futebol, levando a que Nelson Rodrigues decretasse que, finalmente, o brasileiro tinha abandonado o seu “complexo de vira-lata”.

Na contramão, o Rio Grande do Sul experimentava um sentimento de profunda desconfiança com seu futuro. São ilustrativos, nesse sentido, os títulos de algumas análises referenciais desse período: A Crise Econômica do Rio Grande do Sul, de Paulo Schilling; Rio Grande do Sul: Um Novo Nordeste, de Franklin de Oliveira; e Análise do Insuficiente Desenvolvimento Econômico do Rio Grande do Sul, estudo realizado por demanda da Assembleia Legislativa. A explicação de tanto pessimismo residia na percepção de que a economia do Rio Grande do Sul vivenciava uma crise que ultrapassava, em muito, meras dificuldades conjunturais. O diagnóstico realizado pela Análise do Insuficiente Desenvolvimento apontava como razão de fundo dessa crise o fato de a indústria gaúcha não ter capitalizado os estímulos do processo substitutivo de importações, que se traduziram, diretamente, em altas taxas de crescimento nas indústrias dinâmicas e, indiretamente, no aumento da demanda por produtos de consumo, originada pela ampliação do emprego e da renda. Em 1978, o trabalho da FEE, conhecido como 25 Anos de Economia Gaúcha, discordou radicalmente dessa avaliação e procurou demonstrar que as dificuldades da indústria do Rio Grande do Sul decorriam da sua inadequação ao novo perfil da demanda que se configurava no País. Em última análise, o argumento baseava-se na constatação de que a indústria gaúcha, baseada na produção de bens de salário, ficava à margem do núcleo dinâmico da acumulação de capital nacional, alicerçado na produção de bens duráveis e bens de capital. De certo modo, a percepção de que os problemas enfrentados pela indústria estadual estão relacionados com a sua configuração estrutural é uma questão que passou a alimentar grande parte dos debates sobre o futuro industrial do Rio Grande do Sul.

Não cabe aqui avaliar se esse diagnóstico teve alguma influência para que se tenha tornado uma verdadeira obsessão para a sociedade rio-grandense a atração de uma montadora para o Estado. Nem, tampouco, se foi positivo o custo-benefício da atração da GM. O que importa é que, afora o polo petroquímico, essa foi uma das poucas alterações que foi significativa na matriz industrial do Estado.

Como se sabe, o processo de globalização, o Plano Real e os períodos de apreciação cambial trouxeram enormes dificuldades para o parque industrial estadual. O caso da indústria calçadista é sempre o exemplo mais emblemático. Para se ter uma ideia da repercussão provocada pela crise desse segmento no RS, basta ver que a Pesquisa Industrial Anual do IBGE mostra que o mesmo respondia, no ano 2000, por, aproximadamente, 13% do Valor Bruto da Produção e por 30% do emprego industrial no Estado e que, em 2008, esses percentuais haviam caído para, respectivamente, 5,5% e 20%.

O leitor mais atento argumentará, com razão, que essa é uma indústria que se move, internacionalmente, em busca de salários mais baixos e de regiões com legislação menos rígida no que tange ao meio ambiente. É verdade. O problema, entretanto, é saber o que se põe no lugar desse segmento.

Uma consistente corrente de analistas entende, com base na Matriz de Insumo-Produto, que o esforço deva concentrar-se no adensamento das cadeias produtivas que sempre formataram a matriz produtiva, completando e modernizando os seus elos faltantes. De outro lado, situam-se aqueles que defendem a necessidade da implantação de segmentos com maior conteúdo tecnológico e menos dependentes da base agrícola. A seu favor, podem argumentar com o fato de que, com a entrada em operação da GM no ano 2000, a indústria automobilística, que representava 6,5% do VBP industrial do Estado e ocupava 4,6% da sua força de trabalho, passou a responder, em 2008, por 11% do VBP e por 7,3% do pessoal ocupado. Mas é claro que essa evidência está muito longe de oferecer alguma segurança para a formulação de uma política de apoio ao desenvolvimento do parque fabril do Rio Grande do Sul.

Na atualidade, a implantação da indústria naval em Rio Grande, o desenvolvimento de segmentos da microeletrônica e o preço das commodities parecem trazer uma brisa de otimismo para o Estado. Resta saber se o ambiente macroeconômico internacional, a crescente ameaça das economias asiáticas e a já prolongada dificuldade cambial darão fôlego para que se consolide um processo de crescimento sustentável para a indústria gaúcha.

Nesse sentido, o título deste texto, mais do que uma mera referência ao cineasta Godard, alude ao fato de que a possibilidade de responder a essas questões que envolvem a indústria gaúcha ultrapassa, em muito, as “duas ou três coisas que sei dela”.

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