Indústria calçadista gaúcha cresce menos

A indústria calçadista brasileira vem se recuperando-se dos efeitos da crise mundial que eclodiu no segundo semestre de 2008 e causou um encolhimento expressivo da produção e da exportação desse bem em 2009. Estimativas recentes da Abicalçados apontam um incremento de 5,5% no volume de pares a ser produzido no País em 2010, acompanhado de investimentos que devem superar em 11,5% o montante investido em 2009. Também são otimistas as projeções referentes ao consumo aparente de calçados (730 milhões de pares) e às vendas no varejo (crescimento de 12%). A expectativa é de continuidade da expansão dos níveis de emprego, que, em julho, já mostravam uma elevação de 13,7% sobre dezembro de 2009, e das exportações, que aumentaram 10,4% em valor e 15,2% em pares embarcados nos primeiros sete meses de 2010, em relação ao mesmo período do ano passado.

Contudo essa boa performance da indústria calçadista nacional ocorre de modo diferenciado em nível regional, refletindo a existência de dois padrões de organização dessa atividade produtiva. De um lado, tem-se uma organização mais tradicional, localizada principalmente no Rio Grande do Sul e em São Paulo, com predominância de pequenas e médias empresas formando aglomerações produtivas especializadas na fabricação de calçados de couro. Nesses estados, a ênfase na agregação de valor ao produto final, através de investimentos em novas tecnologias, estilo e design, criou um produto diferenciado, de preço médio mais elevado e mais direcionado para nichos de mercado. De outro lado, desponta um padrão de organização mais recente, instalado, na Região Nordeste (notadamente, no Ceará, na Paraíba e na Bahia), por empresas de maior porte, atraídas por menor custo da mão de obra, incentivos fiscais e economias de escala. A produção de calçados predominantemente sintéticos (plástico e borracha), de menor preço, é mais competitiva no segmento do mercado internacional de baixo custo, marcado pela ampliação da concorrência de produtores asiáticos notadamente chineses.

A evolução da produção de calçados e artigos de couro no Brasil e nos dois estados mais representativos desses padrões de organização, Rio Grande do Sul e Ceará, mostra diferença de intensidade das taxas de crescimento, embora com uma trajetória parecida (ver gráfico). A partir de uma posição semelhante (taxa negativa de cerca de 10% em fevereiro de 2009), as três indústrias voltaram a evoluir de modo bastante diferenciado, sendo que a gaúcha enfrentou maiores dificuldades para recuperar a produção. Em grande parte direcionada para o mercado externo, a indústria calçadista do Rio Grande do Sul foi severamente afetada pela retração do comércio internacional e pela ampliação da concorrência dos produtos chineses. Já a indústria do Ceará, produzindo principalmente para o mercado interno, conseguiu reverter as taxas negativas com mais facilidade, favorecida, também, pela adoção de uma sobretaxa de US$ 13,85 à importação do calçado chinês pelo Governo brasileiro. No primeiro semestre de 2010, a produção de calçados no Ceará cresceu 28,26%, respondendo pela maior exportação de calçados em número de pares (47,07%), com preço médio de exportação de US$ 5,69 o par. No Rio Grande do Sul, o crescimento no mesmo período foi bastante menor, 10,81%, mas esse estado detém a liderança no valor exportado (50,56%), a um preço médio de US$ 23,55 o par.

Indústria calçadista gaúcha cresce menos

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