Impactos regionais da desaceleração no RS

A configuração regional do Rio Grande do Sul vem apresentando transformações importantes desde o início deste século, com o crescimento de Rio Grande a partir do Polo Naval e a expansão significativa da região de Caxias do Sul. A aglomeração centrada em Porto Alegre cresce nos municípios adjacentes à Capital e transborda para os Vales do Caí, do Taquari e do Rio Pardo. O aumento dos preços das commodities agrícolas ajuda a agropecuária e a agroindústria da Campanha e do noroeste do Estado.
Nos últimos meses, como o resto do País e boa parte do Mundo, o Estado viu diminuir o crescimento: o Produto Interno Bruto (PIB) recuou 1,3% no primeiro trimestre de 2015, em relação ao mesmo período de 2014. O novo cenário pode modificar tendências regionais, mas é difícil captar isso, pelas barreiras técnicas à produção de dados conjunturais regionais. Uma forma de identificar essas tendências é analisar dados setoriais e, pela estrutura das regiões, inferir o impacto nestas. Dados de admissões e desligamentos no emprego formal, divulgados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, dão pistas sobre movimentos recentes. Mesmo sem o rigor ideal, a importância de entender as mudanças justifica o esforço.

A retração é mais forte na indústria, cuja produção física estadual caiu 11,5% nos cinco primeiros meses de 2015, quando comparada à do mesmo período de 2014, segundo a Pesquisa Industrial Mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As produções de máquinas e equipamentos e de veículos automotores caíram 25% e 29% respectivamente. O impacto maior tende a ocorrer nas regiões nordeste (eixo Porto Alegre-Caxias do Sul), sudeste (Rio Grande) e noroeste (nos vários centros regionais). Dados do Caged mostram saldo negativo de admissões frente a desligamentos na indústria, nesses locais, nos últimos 12 meses: 12.300 nos principais centros da Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), 11.000 na região de Caxias do Sul, 2.500 na região de Rio Grande e 4.000 nas principais cidades do noroeste.

Nos empregos formais não industriais, a RMPA e, acima de tudo, Rio Grande apresentam perdas significativas. Nas cidades da RMPA, cai o emprego da construção civil e há comportamento heterogêneo do comércio e dos serviços; em Rio Grande, há queda consistente nesses três setores. Juntos à indústria, eles respondem pela maioria dos empregos no município, indicando dificuldades generalizadas. As regiões de Caxias do Sul e noroeste apresentam heterogeneidade interna, mas ambas têm saldo estável. Nas demais regiões, menos dependentes da indústria, também há estabilidade.
Mesmo atingidas em cheio em setores importantes, a aglomeração de Porto Alegre e a de Caxias do Sul têm estrutura produtiva mais sólida e diversificada e capacidade atrativa elevada, indicando maior resistência a dificuldades. Rio Grande tem crescimento recente, após décadas de decadência relativa. A cidade depende do Polo Naval e da Petrobrás, com pouca capacidade de atrair outros setores, o que a torna vulnerável: uma retração do Polo pode abortar a recente expansão, afundando consigo a economia local vinculada à renda industrial. A direção da política de investimentos da Petrobrás, ainda incerta, terá impacto decisivo na perspectiva de Rio Grande seguir atraindo investimentos e população para o sul do Estado.

A agricultura apresentou safras recordes em 2013/14 e 2014/15, mas a queda dos preços das commodities impediu um crescimento expressivo em valor, em especial, da soja, ainda que a recente desvalorização cambial compense a rentabilidade no primeiro momento. A perspectiva da manutenção de preços baixos preocupa, em especial pelos seus efeitos nas regiões noroeste e sudoeste, cujas economias giram em torno da agropecuária e da agroindústria. A região noroeste é prejudicada na sua produção de soja e na sua agroindústria, mas a diversidade produtiva e a estrutura de pequena propriedade fundiária podem minimizar impactos negativos e oferecer alternativas. A crescente dependência em relação à soja, porém, pode tornar a região vulnerável. No sudoeste, encontra-se uma economia com propriedade da terra mais concentrada e pouca diversidade produtiva. Com os preços do arroz e da carne estagnados, a dinâmica de crescimento tem pouca perspectiva de retomada.

Se não forem encontradas saídas para o crescimento dessas regiões, a manutenção de baixos preços das commodities pode aumentar a migração para o nordeste do Estado, onde o mercado informal oferece mais alternativas e a perspectiva de retomada do crescimento é maior. Esse movimento agravaria problemas demográficos e sociais no noroeste e no sudoeste.

É cedo para afirmar como cada região reagirá e qual a profundidade das mudanças. Entendê-las é importante para enfrentar os novos cenários e buscar um desenvolvimento que potencialize todas as regiões do Rio Grande do Sul.

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