Globalização, recursos naturais e o interesse do Brasil

Os anos 2002 a 2008 caracterizaram-se por um boom nos preços internacionais das commodities primárias (energia, minérios e alimentos), interrompido bruscamente pela crise financeira mundial.

Contribuiu expressivamente para isso a expansão das economias na China e na Índia, envolvendo a utilização intensiva de energia, matérias-primas e alimentos, para fazer frente à industrialização, à urbanização e ao desenvolvimento da infraestrutura. O surto de crescimento dos preços e a queda brusca observada em 2008 estão associados também, e inequivocamente, à financeirização dos mercados de commodities, isto é, aos movimentos dos investidores financeiros que passaram a especular com commodities como mais uma classe de ativos integrados ao seu portfólio.

A subida dos preços, ao atingir produtos importantes da cesta básica de consumo da população, levou diretamente a uma crise global de alimentos, afetando principalmente países pobres e endividados e importadores líquidos de alimentos. A combinação dos movimentos dos preços com a crise de 2008 elevou o número de pessoas com fome no mundo e contribuiu para aumentar o contingente da população considerada abaixo da linha de pobreza (UNCTAD e FAO).

A percepção do caráter estratégico dos recursos naturais para o futuro da economia mundial, assim como a forte dependência de muitos países das importações de commodities, levou diversos governos, como, por exemplo, os da China e da Arábia Saudita, detentores de importantes reservas financeiras, a comprarem ativos fixos — terras, minas, campos de petróleo, recursos hídricos — fora de suas fronteiras.

Outro conjunto importante de compradores é constituído por grupos financeiros privados que, depois da crise de 2008, sem muitas alternativas de investimento, identificaram os recursos naturais como um refúgio seguro e com boas perspectivas de valorização para aplicações. Esses investimentos caracterizam-se por serem, em grande parte, de caráter especulativo.

Outro grupo de compradores, ainda, é formado por grandes corporações atuantes nas áreas de beneficiamento e comercialização da produção que investem em terras com o propósito de se assegurarem de uma independência relativa no abastecimento de matérias-primas.

Os países mais atingidos pelas compras são, naturalmente, os que apresentam maior disponibilidade de recursos naturais (incluindo a água), preços de aquisição razoáveis e que apresentam um menor grau de controle sobre seus recursos naturais. A maior parte deles localiza-se nos continentes africano e latino-americano.

O Brasil tornou-se um território privilegiado para a atuação dos grupos compradores. As aquisições distribuem-se por todo o espaço nacional, de norte a sul, leste a oeste, visando áreas aptas à produção de celulose, biocombustíveis, grãos, extração de minérios e, mais recentemente, campos de petróleo. Têm sido alvo particular de interesse as regiões dos cerrados no Maranhão, no Piauí e no Tocantins, a região do Mapito.

Esse processo — de tomada pelos estrangeiros dos recursos naturais brasileiros — tem implicações sociais, ambientais e políticas de caráter estratégico, que podem ter consequências sobre o próprio futuro do Brasil como nação soberana. Essas questões de importância estratégica estão a exigir um debate amplo da sociedade. Debate que deve começar pela divulgação de estatísticas oficiais sobre o tamanho das inversões e os seus protagonistas.

Globalização, recursos naturais e o interesse do Brasil

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