Exportações, mercado interno e produção industrial brasileira

As exportações brasileiras representaram, em 2016, 12,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse percentual, ao longo das primeiras décadas do século XXI, teve o seu apogeu em 2004, quando o valor chegou a 16,5%. A partir de então, iniciou uma trajetória de redução, apesar de as exportações continuarem apresentando, em termos reais, um percurso de crescimento até 2007 (Gráfico 1). Depois desse último ano, a crise econômica mundial afetou tanto a quantidade exportada quanto a sua participação no PIB.

Quando se analisa a evolução do índice de quantum das exportações, observa-se que ele manteve uma elevada correlação com a evolução da produção física da indústria brasileira (transformação e extrativa mineral) até 2014, ou seja, até esse último ano, os ciclos da produção industrial acompanharam tanto o ciclo das exportações quanto o do mercado interno.

Pode-se estabelecer três fases bem definidas nessa trajetória das exportações e da produção industrial. A primeira estende-se de 2002 a 2007. Nesse período, o quantum das exportações cresceu a uma taxa média anual de 10,4%, enquanto a produção física da indústria cresceu 4,0% a.a. A segunda fase compreende o período 2008-14, quando tanto a produção física da indústria quanto o volume das exportações se mantiveram praticamente estagnados. Assim, observa-se que o volume das exportações brasileiras em 2014 foi 1,0% inferior ao apresentado em 2007, enquanto a produção industrial encerrou o ano de 2014 2,5% acima da de 2007, o que correspondeu a uma taxa média de crescimento anual de apenas 0,35%. A terceira fase engloba o período 2015-16, anos de queda acentuada do PIB, quando se verificou um comportamento assimétrico entre essas duas séries. Essa dissociação representa o impacto da redução do mercado interno sobre a produção industrial, comportamento que resultou da queda do consumo da administração pública, como consequência do ajuste fiscal promovido pelos Governos Federal e estaduais, do desemprego e da queda dos investimentos e seu impacto sobre o consumo das famílias.

Em 2017, o módico crescimento apresentado pela produção industrial nos primeiros sete meses do ano (0,9%) tem sido puxado pelas exportações localizadas em algumas atividades industriais ou por setores que têm uma participação substancial do mercado externo no total da sua demanda. Esse é o caso, por exemplo, da produção física da indústria extrativa mineral, a qual cresceu 5,2% no período em análise e que esteve associada ao crescimento das exportações de petróleo e gás natural bem como de minerais metálicos e não metálicos. Também merece destaque o crescimento da produção de veículos automotores (11,5%), que, em 2017, tem apresentado um grande aumento de suas vendas no mercado externo. Outro setor que mostra importantes efeitos de encadeamento sobre os demais setores da atividade industrial é o de fabricação de máquinas e equipamentos, cujo crescimento da produção (3,1%) está associado ao mercado externo e ao crescimento da produção agrícola. Dentro do grupo com elevado coeficiente de exportações, ainda convém destacar a produção de celulose e produtos de papel, que apresentou um crescimento tanto nas exportações como na produção (Gráfico 2).

Outros setores importantes dentro do parque industrial brasileiro, seja pela sua participação no Valor da Transformação Industrial, seja pelos seus efeitos de encadeamento, continuaram apresentando queda substancial na produção, apesar de terem tido um grande crescimento nas vendas externas. Esse é o caso das fabricações de coque e derivados do petróleo e de outros equipamentos de transporte. Apesar de, nesses setores, não haver uma correlação direta entre essas duas variáveis, pode-se inferir um desempenho bem inferior, caso não tivesse havido um substancial crescimento das exportações.
Segundo a Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), quando se observa isso de um ponto de vista mais agregado, tem-se que, nos primeiros setes meses do ano, o quantum de exportações de manufaturados cresceu 2,5%, sendo que, no caso de bens de consumo duráveis, essa taxa chegou a 42,7%. No entanto, conforme demonstram os dados das Contas Nacionais, divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), relativas ao primeiro semestre do corrente ano em relação ao primeiro semestre de 2016, a formação bruta de capital fixo apresentou uma queda de 5,1%, o consumo da Administração Pública caiu 1,9%, e o consumo das famílias teve uma queda de 0,6%. Assim, em que pese o fato de alguns setores da indústria já estarem operando com taxas positivas de crescimento da produção em 2017, os dados das Contas Nacionais em conjunto com o desempenho desigual entre os setores industriais dificilmente dariam suporte a uma reversão consistente do ciclo de crise da economia brasileira.

A análise acima parece demonstrar que uma reversão mais substancial da produção industrial deverá ir além do crescimento das exportações, ou seja, faz-se necessária uma reativação da demanda doméstica. A dimensão relativamente elevada da economia brasileira (9.a colocada no ranking mundial), o grande e diversificado parque industrial e o tamanho da população do País requerem um crescimento que esteja associado com o desenvolvimento do mercado interno. Isso, no entanto, vai depender de políticas que estimulem a geração e a distribuição de renda, de emprego e de investimentos.

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