Expansão da frota de veículos e caos urbano

As vendas de novos veículos automotores no Brasil têm sido marcadas por um impressionante dinamismo nos últimos anos. As bases desse vigoroso e sustentado movimento expansionista da frota podem ser encontradas na recomposição do poder de compra dos assalariados e na abertura do mercado para consumidores de faixas mais baixas de renda. Colabora também, nesse sentido, a franca opção por um modelo de sociedade que tem no automóvel sua escolha modal privilegiada de transporte.

Tal comportamento é replicado no contexto do Rio Grande do Sul, verificando-se também aqui um aumento quase sem limites da frota em circulação e a ocorrência de sucessivos recordes de vendas. Considerando-se os anos mais recentes, verifica-se que o parque total do Estado cresceu 45,2% entre 2004 e 2010, equivalendo a quase um milhão e meio de veículos adicionais circulando nas vias públicas. Um desempenho dessa ordem foi determinante para que a relação pessoas por veículo caísse de 3,2 para 2,3 nesse período. Os automóveis e as caminhonetes, com 70,7% de participação em 2010, formavam o principal contingente motorizado, seguidos pelas motos, cujo peso relativo ascendeu de 15,4% em 2004 para 19,7% em 2010. Tomando-se como indicativo a taxa geométrica anual de crescimento do período, da ordem de 6,41%, pode-se esperar a adição de outras 300.000 unidades em 2011, passando o total para pouco mais de cinco milhões.

Porto Alegre concentrava 14,6% dos veículos registrados no Estado em 2010, tendo o parque crescido 30,2% no período analisado (4,49% a.a.). Isso correspondeu à inclusão de quase 160.000 novas unidades no tráfego já amplamente congestionado da Capital dos gaúchos, fazendo a relação pessoas por veículo diminuir de 2,6 para 2,0.

Um dos principais fatores na origem dos problemas de congestionamento é, precisamente, o aumento incontrolado dos automóveis em circulação, levando a uma enorme pressão sobre o sistema viário e a uma deterioração acentuada das condições de mobilidade urbana. Uma explicação trivial para o fenômeno remete à não disponibilização de suficiente espaço de circulação adicional, à medida que a população motorizada se expande, com base na crença simplória de que deve haver uma capacidade ilimitada de circulação.

Na verdade, a solução desses desafios passa longe da ênfase na realização de grandes obras de engenharia viária, de duvidosa e efêmera eficácia. As melhores alternativas apontam ações direcionadas a influenciar a própria demanda de viagens em automóvel, com restrições ao uso deste último, a exemplo da limitação das vagas de estacionamento, sejam públicas ou privadas, da cobrança pelo ingresso em determinadas áreas urbanas, senão de seu virtual banimento, ou do desestímulo ou da proibição de tráfego em determinados dias ou horários. Em qualquer hipótese, a introdução de melhorias de grande porte nos sistemas de transporte público e a sua efetiva entronização como escolha modal prioritária devem colocar-se, forçosamente, como a outra face dessa moeda.

Expansão da frota de veículos e caos urbano

Compartilhe