Evolução recente da desocupação e estagnação salarial no RS e no Brasil

3O Rio Grande do Sul não ficou imune ao processo recessivo vivenciado pela economia brasileira a partir de meados de 2014. Os dados disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mediante a Pesquisa Nacional de Amostragem de Domicílios Contínua trimestral, permitem situar a trajetória do mercado de trabalho do Estado em relação ao que é observado na economia brasileira nos últimos anos.

Nesta análise, destacam-se três grupos de ocupação: os empregadores, os empregados com carteira de trabalho assinada e os sem carteira assinada. Os trabalhadores domésticos não estão incluídos nesta discussão. De modo geral, esses grupos podem ser divididos em dois conjuntos, de acordo com os papéis funcionais desempenhados na economia. O primeiro conjunto, o dos empregadores, efetua a alocação dos diversos recursos produtivos (trabalho e capital) na produção, ao decidir o montante de investimentos, o nível de utilização da capacidade instalada (dadas as condições da demanda por bens e serviços) e, por extensão, a quantidade de trabalhadores a serem empregados. O segundo conjunto é composto pelos empregados, os responsáveis pelo fornecimento de trabalho aos processos produtivos, sejam eles com ou sem carteira assinada. O comportamento das remunerações desses dois conjuntos de trabalhadores apresentam dinâmicas distintas.

O Gráfico 1 apresenta a remuneração mensal habitual do trabalho principal dos empregadores do Brasil e do Rio Grande do Sul, em valores reais, entre o primeiro trimestre de 2013 e o primeiro trimestre de 2017. Os empregadores apresentam maior rendimento mensal habitual quando comparado aos demais grupos de ocupação, tanto para o Brasil como para o RS. Observa-se, para o Brasil, que a queda dos rendimentos reais dos empregadores inicia-se no terceiro trimestre de 2013, no início suave, mas acelerando-se posteriormente. Os indícios demonstram que, a partir do terceiro trimestre de 2016, os rendimentos dos empregadores entraram em uma trajetória de recuperação.

Para o RS, constata-se que a redução dos rendimentos dos empregadores foi mais acentuada ao longo do período. Em linhas gerais, constata-se que, para o Brasil, não há correspondência direta entre a recessão de 2014 e a queda dos rendimentos dos empregadores. Esses rendimentos começaram a cair antes da crise. Cabe assinalar que, no caso do RS, os rendimentos dos empregadores aparentaram maior sensibilidade aos efeitos da contração da economia brasileira. Por um lado existe a possibilidade de que esse comportamento derive de efeito estatístico oriundo do menor tamanho da amostra para o Estado. Entretanto, a comparação entre a taxa de variação anual do segundo trimestre de 2016 em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, que é estatisticamente significativa tanto para a amostra estadual como para a nacional, indica queda mais acentuada dos rendimentos dos empregadores do RS. O comportamento peculiar dos rendimentos dos empregadores gaúchos pode estar associado à existência de atividades empresariais de menor escala, especialmente as ligadas à pequena propriedade rural.

Para os empregados com e sem carteira de trabalho assinada, a primeira constatação é o crescimento da taxa de desocupação. Tanto para o Brasil como para o RS, esse processo se iniciou a partir do último trimestre de 2014. Até o primeiro trimestre de 2017, os níveis de desocupação continuaram crescendo, como pode ser visto no Gráfico 2. Para o RS, as indicações são de que o nível de desocupação se estabilizou em um patamar entre 8% e 9% a partir do segundo trimestre de 2016, o que equivale a quase o dobro da taxa de desocupação observada no segundo trimestre de 2014.

O aumento da desocupação articula-se com quedas moderadas e posterior estagnação dos salários reais médios no RS (Gráfico 3). Para o Brasil, observa-se uma tendência de estagnação dos salários reais dos empregados. No caso do RS, o tamanho da amostra não permite discernir se a volatilidade observada nos salários é decorrente de efeitos estatísticos ou de maior sensibilidade às condições recessivas do mercado de trabalho.

Em uma visão geral, constata-se a relativa estabilização dos salários reais e o arrefecimento, no caso gaúcho, do crescimento dos níveis de desocupação. Ao se observar o mercado de trabalho em uma perspectiva um pouco mais ampla no tempo, constata-se que inexiste tendência de recuperação do emprego para os níveis anteriores à crise. Até o momento, o único indício de recuperação de rendimentos situa-se na remuneração dos empregadores do RS. Ocorre crescimento estatisticamente significativo da ordem de 13,3% dessa categoria de rendimentos no último trimestre de 2016 em relação ao trimestre anterior. As limitações estatísticas dos dados não permitem comparações quantitativas com trimestres dos anos anteriores, o que não permite isolar efeitos sazonais. Para o Brasil, inexistem evidências estatisticamente significativas de recuperação dos rendimentos, mesmo para o caso dos empregadores. O retorno a um processo socioeconômico inclusivo, como o observado ao longo da primeira década do século XX, não é visível no futuro próximo.

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