EUA: austeridade — e estagnação — à vista?

Assim como não anda fácil a vida para os milhares de norte-americanos, que após os efeitos da crise de 2007 passaram pelo maior declínio nas condições financeiras desde 1929, o mesmo pode ser dito sobre o governo de Barack Obama. As recentes discussões acerca do orçamento governamental e de uma nova elevação no teto da dívida federal são mais um tempestuoso ingrediente político a se adicionar às infindáveis dificuldades enfrentadas pelo País para a manutenção de sua atividade econômica sem o auxílio dos trilionários pacotes de estímulo postos em prática pelo Governo e o FED. Ao indicar que a austeridade é assunto predominante na agenda política de ambos os partidos, tal recuperação mostra-se mais distante.

O ano de 2013 realmente foi duro para o governo democrata. Logo em janeiro, predominaram as discussões sobre as nefastas consequências de a economia norte-americana cair no chamado “abismo fiscal”, ou seja, uma forte contração no produto, derivada do corte de diversas medidas de estímulo fiscal e de alívios aos contribuintes. Como na discussão atual, a solução foi costurada em cima da hora e envolveu o cancelamento de alguns benefícios e a postergação no corte de outros, além de um aumento na alíquota mais elevada do imposto de renda norte-americano. Discussões acerca da inevitável necessidade de elevação do teto da dívida foram deixadas para outubro, mês em que ele novamente seria atingido.

Porém, mesmo com todas as dificuldades apresentadas, a economia norte-americana obteve alguns dados positivos. A taxa de desemprego caiu constantemente, embora tal fato venha acompanhado de aumento no subemprego e da precarização das condições de trabalho, além da diminuição na População Economicamente Ativa e na renda média do trabalho. A desalavancagem dos orçamentos familiares perdeu um pouco de intensidade, embora as famílias ainda apresentem um grande nível de endividamento. A indústria manufatureira, pela primeira vez em anos, teve aumento na participação relativa do emprego e, juntamente com a possibilidade da instalação de uma indústria de extração em massa do gás do xisto, alimentou sonhos de uma reindustrialização, o que também colaboraria para diminuir a dependência de importação de petróleo e para aliviar o déficit em transações correntes. Somado a isso, a situação das grandes corporações norteamericanas é boa, com aumento nos lucros — embora com grande parte advinda do exterior e resultado de contrações nos custos salariais — e reservas em caixa.

Nesse contexto, verificou-se uma tendência otimista entre diversos analistas, inclusive com o FMI revisando para cima as previsões para o PIB. O clima contagiou o FED, que já sinalizava, em maio, a possibilidade de, em setembro, iniciar a retirada gradual de seu programa mensal de recompras de títulos — o Quantitative Easing —, o que foi suficiente para um verdadeiro alvoroço nos mercados de câmbio internacionais.

Porém, novamente, as previsões otimistas quanto ao crescimento no produto e a intensidade na diminuição do desemprego não se concretizaram. Em outubro, o FED anunciou a manutenção de seu programa de estímulo e o Congresso, ao não aprovar a tempo o seu orçamento, trouxe uma paralisia parcial ao Governo Federal, algo que não acontecia há 15 anos. Quase um milhão de funcionários públicos foram temporariamente dispensados, em direito à remuneração, e até mesmo a Estátua da Liberdade foi fechada aos turistas. O “obamacare”, ambicioso projeto de implantação de um sistema público de saúde e uma das principais bandeiras democratas, ficou ainda mais distante de sua aprovação no atual cenário político. Contraditoriamente, poucas semanas antes da paralisia governamental discutia-se uma ação militar dos EUA na Síria, que, por pouco, não saiu do papel. Para um governo com imensas dificuldades em aprovar seu orçamento pela suposta necessidade de cortar gastos, uma incursão militar seria uma prioridade, no mínimo, discutível.

Após duas semanas de paralisia e incerteza, o acordo foi costurado, o orçamento foi aprovado, e o limite da dívida ganhou sobrevida de mais alguns meses. Porém, há a promessa de cortes de gastos no futuro. Dentro dessa perspectiva, alguns pontos preocupantes vieram à tona.

O primeiro é que os EUA parecem fadados a rumar para um período de austeridade. Se, nos primeiros anos após a crise, o gasto do Governo foi fortemente ampliado, transformando-se no principal estímulo ao crescimento, desde 2012 a diminuição de sua atuação contribuiu para o arrefecimento do produto. Logo, para acelerar a recuperação da economia, seria necessária uma ampliação da ação estatal, e não os cortes que têm sido feitos, que atingem inclusive áreas prioritárias como infraestrutura e P&D — em que o gasto estatal correspondia a cerca de 60% do total, mas vem declinando —, o que pode vir a prejudicar a competividade da economia. Segundo o último relatório do Levy Institute, a redução no déficit fiscal do Governo Federal já impediu que a economia dos EUA alcançasse as previsões de crescimento e emprego do Governo, e o prosseguimento em sua redução poderá fazer com que o PIB caia em 2014. Segundo recente matéria da The Economist, a paralisia do Governo trouxe um efeito imediato de queda de 0,4% no PIB trimestral, conta que deve ampliar-se com a mensuração total dos seus efeitos.

O segundo ponto é que, não sendo possível para os EUA alcançarem uma rota de crescimento robusto, o País não terá como exercer a função de locomotiva mundial. A necessidade de recuperação dos EUA, para que o mundo volte a crescer no padrão do início do século XXI, parece contaminar diversos analistas, que veem com otimismo os resultados mais modestos que a economia apresenta. A atual onda de incerteza trazida pelos recentes eventos conduz as previsões econômicas para mais perto da realidade. Dificilmente uma expansão em curto prazo do produto global será puxada pela nação mais poderosa do mundo.

E, em meio a brigas políticas, o principal problema a retardar a recuperação da economia dos EUA é deixado de lado: as famílias seguem muito endividadas e veem suas perspectivas para o futuro piorarem com os diversos cortes nos programas de assistência social, reduções salariais e precarização no emprego, o que faz com que o consumo não se amplie e o PIB apresente padrão estagnante. A austeridade vem como mais uma força a intensificar tal padrão.

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