Estimativas da população flutuante do Litoral Norte: uma aplicação para taxas de criminalidade

Os Censos Demográficos e outras pesquisas de menor periodicidade proporcionam um retorno imensurável ao País. Sem essas pesquisas, ficariam comprometidas questões como a adequada representação política de entes federados, a correta distribuição de verbas estatais, a construção de indicadores econômicos e sociais, além da elaboração das mais diversas ações de políticas públicas. Contudo essas pesquisas limitam-se às suas respectivas datas de referência, que, em geral, são correspondentes a um dia específico no meio do ano, não retornando informações sobre as populações sazonais, que se deslocam durante um período diferente da data da pesquisa (também denominadas populações flutuantes ou temporárias).

No caso específico do Litoral Norte do RS, uma importante parcela de residentes de outras partes do Estado ruma todos os verões para essa região, em busca de lazer. Conhecer esse contingente é fundamental, pois, com essa migração sazonal, aumentam as demandas por policiamento, atendimento médico e outros serviços, exigindo uma readequação dos recursos públicos. O mesmo vale para as empresas privadas, que aumentam os investimentos na região durante o veraneio e necessitam conhecer sua potencial demanda para fins de planejamento. Além disso, os indicadores socioeconômicos anuais, que são calculados utilizando a população residente, poderiam considerar também a população temporária, aproximando-se da realidade desses municípios.

Até então, entretanto, não havia um estudo que estimasse o tamanho da população temporária no Litoral Norte do Estado. Com base nessa necessidade, a Fundação de Economia e Estatística (FEE) lançou, recentemente, o relatório Estimativas para a população flutuante do Litoral Norte do RS, em que se investigam os oito municípios do Conselho Regional de Desenvolvimento (Corede) Litoral banhados pelo mar — Balneário Pinhal, Cidreira, Tramandaí, Imbé, Xangri-lá, Capão da Canoa, Arroio do Sal e Torres —, além das praias de Quintão (pertencente a Palmares do Sul), Atlântida Sul (pertencente a Osório) e Santa Rita de Cássia (pertencente a Terra de Areia). Para a execução desse trabalho, fez-se uso dos Censos Demográficos de 2000 e 2010, de dados mensais do volume micromedido de água (repassados pelas companhias de água e saneamento) e do fluxo diário de carros que passam pelo pedágio da BR-290 em Santo Antônio da Patrulha.

Nesse relatório, estimou-se, para a região investigada, cuja população residente era de 208.000 em janeiro de 2015, uma população total (residente mais flutuante) de 501.000 pessoas nesse mesmo mês (considerando a média de todos os dias), um incremento de 141,2%. Capão da Canoa seria o município com a maior população total (106.000), seguido por Tramandaí (96.000) e Torres (65.000), representando um incremento de 123,8%, 101,3% e 72,9% respectivamente.

Além disso, foram realizadas estimativas populacionais diárias para a região investigada, de dezembro de 2014 a abril de 2015, indicando, para os meses de janeiro e fevereiro, uma população de aproximadamente 440.000 pessoas em dias de semana, entre 500.000 e 580.000 em finais de semana e de 730.000 em picos como Ano Novo e Carnaval. É possível fazer o download do relatório na página da FEE, onde constam a metodologia adotada e todos os resultados.

A fim de apresentar uma aplicação dessas estimativas, podemos utilizar alguns indicadores de criminalidade para o RS e para os oito municípios considerados (descartando as três praias). Esses municípios, que, somados, em julho de 2014 apresentavam uma população de 201.000 pessoas, conforme as estimativas populacionais da FEE, possuíam uma taxa de homicídios de 31,9 para cada 100.000 pessoas, uma taxa de furtos ou roubos de veículos de 32,7 para cada 10.000 pessoas (ainda que esse indicador seja geralmente apresentado em relação à frota, a correlação com a população é altíssima) e uma taxa de tráfico de entorpecentes de 21,5 para cada 10.000 pessoas. Esses valores estão todos acima do total do Estado, que apresentava 20,9, 29,2 e 8,8 respectivamente.

No entanto, essas taxas, no Litoral Norte, não levam em consideração o incremento populacional nos meses de verão. Por exemplo, no caso dos furtos ou roubos de veículos, o número de casos em janeiro e fevereiro foi 157,5% maior do que nos demais meses de 2014. No caso do tráfico de entorpecentes, esse percentual foi de 138%. A exceção foram os homicídios: enquanto, nos demais meses, a média foi de 5,4 ocorrências, em janeiro e fevereiro a média foi de 5,0, número 7,4% menor. Assim, para as duas primeiras taxas é clara a necessidade de dividirmos as incidências pela população média dos 12 meses. Mas, mesmo no caso dos homicídios, dependendo da análise que se deseja fazer, podemos considerar a população média, pois, se as ocorrências foram aproximadamente constantes ao longo dos meses, podemos dizer que a população que pernoitou no Litoral Norte durante o verão (residente ou não) foi menos exposta ao risco de homicídios do que nos demais meses.

Assim, aplicando a população média mensal, reduzem-se as taxas de criminalidade do Litoral Norte. A taxa de homicídios, nesse caso, é estimada em 24,1 para cada 100.000 pessoas, a taxa de furtos ou roubos de veículo reduz-se para 24,7 para cada 10.000 pessoas (tornando-se menor que a do RS) e a taxa de tráfico de entorpecentes diminui para 16,2 para cada 10.000.

Assim como no caso desses indicadores de criminalidade, outras taxas podem ser calculadas com base na população média mensal da região, o que permite uma análise mais realista da situação desses municípios. Como a população geralmente está no denominador da fórmula de cálculo, espera-se uma redução desses valores.

Captura de tela 2016-07-11 16.13.39

Compartilhe