Estiagem no RS: impactos e desafios

Nos últimos meses, a estiagem e seus possíveis desdobramentos econômicos e sociais geraram apreensão na sociedade gaúcha. Em razão da importância do setor agrícola para a economia do Estado, multiplicaram-se tentativas de mensurar o “tamanho do estrago” oriundo da seca. Essa é uma tarefa complexa, pois há uma miríade de efeitos causados pela falta de chuva: desde a insuficiência de água para consumo humano e animal, passando por perdas na produção do Setor Primário e efeitos indiretos em outros setores, até o aumento no custo de vida da população. Em outras palavras, os reflexos econômicos da estiagem materializam-se em queda na renda do produtor, o que traz consigo um impacto multiplicador negativo no conjunto da atividade produtiva estadual. Assim, esse menor montante de renda em mãos dos agricultores transforma- se, muitas vezes, em incapacidade de honrar compromissos financeiros, em menor consumo pessoal e em redução dos investimentos, dentre outros efeitos. Adicionalmente, há um conjunto de encadeamentos da agropecuária com os setores industriais e de serviços que é de difícil estimação. Entretanto, apesar dessas dificuldades, já se pode antever que o desempenho do PIB estadual será, muito provavelmente, inferior ao nacional em 2012.

Com base nessa importância, busca-se sinalizar como a produção de grãos deve sofrer com esse sinistro. Para tanto, a tabela abaixo apresenta dados da safra de verão de 2011 e de sua previsão inicial e atual para 2012. Dado que as condições climáticas favoráveis observadas no ano anterior dificilmente se repetiriam, já era esperada uma redução de cerca de 10% na safra de 2012. Levando em conta esse aspecto, faz-se a comparação entre a estimativa inicial e a atual para 2012, a qual indica que a cultura do milho deve obter a maior quebra (41,89%), seguida da soja (22,33%), do arroz (7,30%) e do feijão (6,47%). Considerando-se o preço médio desses produtos para a segunda semana de fevereiro de 2012, a perda em Valor Bruto da Produção seria de R$ 2,9 bilhões, assim distribuídos: soja, 55,24%; milho, 34,14%; arroz, 10,37%; e feijão, 0,25%.

Cabe ressaltar, no entanto, que esse cálculo é um exercício bastante simplificado e restrito à produção e às receitas das quatro culturas citadas; não devendo ser entendido como o impacto real da seca na economia gaúcha. Deve, sim, ser tomado como um alerta, sinalizando a importância da implantação de políticas públicas voltadas à mitigação dos efeitos da estiagem, evento este que tem-se mostrado recorrente no Estado. Assim, esse cálculo pode subsidiar o desenho de políticas que visem a enfrentar o problema de maneira eficiente.

No curto prazo, dados os reflexos sociais gerados pela seca, devem ser reforçadas, em caráter emergencial, políticas de renegociação de dívidas, de fornecimento de água, alimentos e sementes, relacionadas às necessidades imediatas da população atingida. Porém, tendo em vista a recorrência do problema, torna-se fundamental a adoção de medidas estruturais, de médio e longo prazos (amplamente ressaltadas pela Emater), que possibilitem a construção de uma infraestrutura de irrigação efetiva, incluindo fornecimento adequado de energia elétrica, construção de açudes, cisternas, poços, barragens, agilidade na concessão de licenciamentos ambientais, diminuição da tributação e formas de financiamento que incentivem a irrigação, além da qualificação do produtor para um manejo que atenue os efeitos perversos da seca. Enfim, é imperativo que o tema da estiagem e as formas de minimizar seus efeitos assumam relevância na agenda de debate de toda a sociedade. O risco climático é inerente à atividade agropecuária; amenizar suas consequências é um grande desafio, e, quanto antes forem tomadas as medidas necessárias, menor deverá ser o prejuízo com as estiagens vindouras.

Estiagem no RS impactos e desafios

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