Especulação e ganhos financeiros

O senso comum diz que, se o índice Dow Jones subiu 15,43% e o Euro Stox 50 (índice composto por 50 grandes
companhias européias) valorizou 9,55% entre janeiro e novembro, as aplicações em papéis nos Estados Unidos continuaram sendo mais rentáveis do que os investimentos na Europa, em 2003. Certo? Não necessariamente. Suponhamos um aplicador que tenha convertido um euro em um dólar no início desse ano e aplicado em um fundo indiciário de ações nos Estados Unidos. Até novembro, sua aposta teria obtido um ganho de pouco mais de 1% em euros. Já um aplicador que tivesse feito o caminho inverso teria alcançado, em dólares, um rendimento aproximado de 25% na Bolsa de Paris (índice CAC) e de 45% na Bolsa de Frankfurt (índice Dax).

Por trás dessa aparente contradição encontra-se a forte volatilidade cambial, presente mesmo entre as principais divisas mundiais, a qual resulta da lucrativa desorganização do sistema financeiro internacional. Desde o início do ano, o euro já contabiliza uma valorização aproximada de 15%, e muitos analistas estimam que a relação entre as divisas possa atingir até mesmo a marca de US$ 1,30 por um euro ainda nesse ano. Mesmo que, conjunturalmente, a economia norte-americana tenha reencontrado o caminho do crescimento, a própria desvalorização do dólar, que aumenta a competitividade dos produtos norte-americanos sem, contudo, eliminar seus elevadíssimos déficits comerciais até o momento, aponta os limites estratégicos desse caminho.

Um aprofundamento desse movimento poderia levar a uma mudança no portfólio dos investidores internacionais de graves conseqüências para o financiamento externo da economia norte-americana. Escândalos recentes quanto à gestão dos mutual funds, pressões protecionistas sobre o Governo chinês e a crescente desafecção dos investidores pelos títulos do Governo norte-americano podem reforçar esse movimento de desvalorização e levar o Governo a uma elevação de suas taxas de juros. Se isso demonstra que o Fed tem instrumentos eficazes para reverter esse processo, não deixa de ser relevante que o euro já se apresente como um ator capaz de jogar um papel ativo na especulação com divisas em nível mundial, representando mais um elemento de instabilidade nesse já fragilizado sistema e, portanto, mais uma fonte para ganhos fáceis em arbitragens e apostas as mais diversas.

Especulação e ganhos financeiros

Esses movimentos internacionais são importantes também para as economias latino-americanas e suas perspectivas. Com uma valorização de 62% na Bolsa de São Paulo, um aplicador que tivesse investido um dólar em papéis representativos do índice Bovespa teria obtido um rendimento nessa divisa de mais de 90% graças à valorização cambial no Brasil, no ano, até novembro de 2003. Esse ganho se reduz para expressivos 75% em euros. Valorizações tão expressivas aumentam a fragilidade da economia brasileira face ao comportamento dos juros no Exterior, onde uma tendência altista pode precipitar um movimento de realização de lucros. É importante salientar que aproximadamente R$ 6 bilhões já foram aplicados por estrangeiros em ações no Brasil, em 2003. Essas aplicações podem querer retornar, bem mais robustas, à relativa segurança que oferecem países e divisas economicamente mais fortes, reforçando nossa fragilidade externa e impedindo uma recuperação mais ampla da atividade no Brasil, em 2004.

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