Emprego em alta na indústria calçadista gaúcha

O crescimento do emprego na indústria calçadista gaúcha nos últimos quatro anos deve ser percebido como parte de um amplo processo de reorganização dessa cadeia produtiva na década de 90. Essa atividade contém diversos elementos de um sistema local de produção (SLP). O Vale do Sinos e o seu entorno abrigam a cadeia produtiva completa (couro, calçados, componentes e equipamentos), sediando as principais representações setoriais e concentrando um grande número de instituições de ensino, pesquisa e desenvolvimento. Apesar disso, essa atividade ainda não adquiriu um formato mais acabado de SLP, caracterizando-se ainda como um arranjo produtivo local (APL).

Durante o período 1994-98, esse APL atravessou uma séria crise, que resultou no fechamento de mais de 200 empresas, conseqüência da reestruturação iniciada no começo dos anos 90 e agravada com a sobrevalorização do real. Nesse mesmo período, segundo informações da RAIS-MTE, o emprego formal nos segmentos produtores de couros, calçados e componentes para calçados passou de 154.322 em 1994 para 115.416 em 1998, ou seja, ocorreu uma demissão de 38.906 trabalhadores, sem se considerarem as perdas no segmento de máquinas e equipamentos.

Esse processo trouxe melhorias à competitividade de diversas empresas, e seus resultados sobre o trabalho manifestaram-se a partir de 1999. Conforme dados da RAIS-MTE, o emprego formal na produção de calçados, couros e componentes elevou-se para 128.946 em 1999, alcançando 149.608 em 2001. Em novembro de 2002, nos 11 principais municípios que agregam essa atividade, dados do Cadastro Geral de Emprego e Desemprego (Caged), do MTE, revelaram um saldo positivo entre admissões e desligamentos de 13.835 trabalhadores formais nos últimos quatro anos. É evidente que a recuperação do emprego se baseia, em parte, nos efeitos da recente desvalorização cambial sobre as exportações. Ressalte-se, porém, que o saldo se manteve positivo mesmo nos anos 2001 e 2002, quando houve queda na produção de calçados.

O fato é que o APL calçadista, além de ter alcançado melhores condições de competitividade no mercado internacional, introduziu alguns fatores capazes de garantir maior sustentabilidade aos empregos gerados. Essa situação se fundamenta na política estadual de apoio aos SLPs gaúchos e em diversas iniciativas das representações empresariais e do Governo Federal. As ações implementadas visaram melhorar a sinergia do arranjo produtivo a partir do reforço das diversas formas de cooperação e da democratização das externalidades, tentando inserir competitivamente as empresas menores, reforçar o poder de negociação das cooperativas, diversificar a participação da indústria no mercado mundial e oferecer condições de crédito mais acessíveis à maioria das empresas.

Entretanto as diversas instituições não chegaram ao ponto de estabelecer um verdadeiro pacto regional, mantendo conflitos que limitam o acesso equilibrado às vantagens de aglomeração características de um SLP. A relação capital-trabalho fundamenta-se em parâmetros pouco avançados, sendo que os salários são mantidos em níveis relativamente baixos, combinados com alta rotatividade da mão-de-obra. As entidades empresariais são pouco representativas das pequenas empresas, havendo, ainda, a necessidade de aprofundamento e dinamização no processo de difusão de uma nova concepção de design e de inovação de uma forma geral. Somente a partir desse novo padrão será possível avançar na concorrência internacional e ampliar o emprego de forma sustentada.

Emprego em alta

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