Em busca de um alívio no crédito

Em 25 de julho de 2014, o Banco Central do Brasil (Bacen) adotou medidas de incentivo ao crédito, com o objetivo de estimular a economia. O foco das medidas anunciadas foi lidar com o excesso de liquidez retido dentro do próprio balanço da autoridade monetária, sob a forma de depósitos compulsórios, o que tem inibido, segundo o Bacen, o melhor funcionamento do mercado de crédito. Na realidade, a autoridade monetária (Bacen), através do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef), criado em 2011, diagnosticou que, no momento, não falta liquidez no sistema bancário, pois o volume de depósitos compulsórios subiu R$ 50 bilhões nos últimos 12 meses, chegando a R$ 405 bilhões. Mas há problemas na distribuição dessa liquidez. Ela está concentrada no Bacen e não chega a todos os potenciais segmentos demandadores de crédito. Um exemplo são as instituições financeiras de pequeno e médio portes, muitas das quais atuam em nichos como crédito consignado e crédito a empresas. Em vista disso, a expansão do crédito voltado ao consumo tornou-se moderada, com retração em algumas importantes linhas (caso de financiamento de veículos), ou teve crescimento abaixo da taxa de expansão do Produto Interno Bruto (PIB).

Do lado da demanda por crédito, houve uma mudança de perfil, com maior procura por financiamentos imobiliários e menor procura por financiamentos de bens de consumo duráveis, como carros e eletrodomésticos.

Na realidade, os estímulos dados ao crédito devem aumentar sobretudo a disponibilidade de recursos financeiros para os bancos públicos, principais agentes da política anticíclica do Governo Federal nos últimos anos. Também as instituições financeiras de médio e pequeno portes devem estar entre as maiores beneficiadas, pois as medidas trazem a possibilidade de fontes mais baratas e abundantes de liquidez, o que reduz o custo da instituição para emprestar.

Ainda com relação ao mercado de crédito, alguns números mostram o seu atual estado, como, por exemplo, as operações de crédito do sistema financeiro, incluindo recursos livres e direcionados, que totalizaram R$ 2.804 bilhões em maio, crescendo 2,6% no trimestre findo em maio e 12,7% em 12 meses (variações respectivas de 3,1% e 14,6% nos mesmos períodos até fevereiro). A relação crédito/PIB atingiu 56,1% em maio (55,7% em fevereiro e 54,5% em maio de 2013).

As carteiras dos bancos públicos e das instituições privadas nacionais e estrangeiras cresceram, na ordem, 3,8%, 0,8% e 2,5% no trimestre, representando, respectivamente, 52,4%, 32,5% e 15,1% do estoque de crédito do sistema financeiro em maio de 2014 (49,4%, 34,9% e 15,7%, nessa ordem, em maio de 2013). O aumento da representatividade da carteira dos bancos públicos refletiu, em parte, o dinamismo das modalidades crédito rural e crédito imobiliário.

O saldo do crédito com recursos livres totalizou R$ 1.513 bilhões em maio (54% do crédito total, ante 57,5% em maio de 2013), elevando-se 1,4% no trimestre até maio e 5,7% em 12 meses. O estoque de operações com recursos direcionados alcançou R$ 1.291 bilhões em maio, elevando-se 4,2% em relação a fevereiro e 22,3% em 12 meses. A evolução decorreu de aumentos tanto nas carteiras das pessoas jurídicas como nas das pessoas físicas. No caso das últimas, isso ocorreu com expansões acentuadas nas modalidades financiamentos imobiliários e financiamentos rurais. No segmento de pessoas jurídicas, o saldo dos financiamentos com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) — 72,1% da carteira — cresceu. As concessões do BNDES ao setor produtivo — que não incluem os desembolsos do BNDES Participações S/A (BNDESpar) — totalizaram R$ 35,6 bilhões no trimestre encerrado em maio (variações de 32,6% no trimestre até maio e 2,1% em 12 meses). Assim, verifica-se que a taxa de variação do total do crédito embute crescimentos bem discrepantes entre os segmentos livre e direcionado. Enquanto o primeiro aumentou 5,7% em 12 meses, o que já se configura como uma queda real, uma vez que a inflação, no mesmo período, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), foi de 6,4%, o direcionado cresceu 22,3% em 12 meses até maio.

É importante destacar que o mercado de crédito voltado ao consumo, após anos em forte expansão, ainda que arrefecida com a introdução de medidas macroprudenciais, em finais de 2010, passou por uma moderação. Nos últimos trimestres, observaram-se, de um lado, redução de exposição por parte de bancos e, de outro, desalavancagem das famílias. No agregado, portanto, infere-se que os riscos no segmento de crédito ao consumo vêm sendo mitigados. Em outra dimensão, a autoridade monetária considera oportunas iniciativas no sentido de moderar concessões de subsídios por intermédio de operações de crédito.

Concluindo, deve ser registrado que o estímulo das medidas sobre o crédito tende a ser limitado. A questão é que as ações tomadas pelo Bacen não conseguem mudar uma das principais travas atuais do crédito: a falta de demanda. Também deve ser enfatizado que as medidas devem ter impacto um tanto limitado no crescimento do crédito, uma vez que a recente desaceleração dos empréstimos é causada especialmente pela percepção mais aguda de risco de crédito dos bancos, dados a visível desaceleração da economia e os riscos crescentes de desemprego.

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