Em 2012: nem o fim do mundo, nem o fim da crise

O ano de 2012 envolve uma aura mística. Segundo previsões esotéricas, o dia 21.12.2012 marcaria o fim do último ciclo do calendário maia, o que alguns interpretaram como sinal do fim dos tempos.

Deixando-se de lado a metafísica, mas também no ramo da futurologia, outra “profecia” bastante repetida pelos cientistas econômicos é a de que este ano traria, finalmente, a recuperação dos países desenvolvidos frente aos eventos da crise financeira de 2007-08 — previsão para todos anos após o seu eclodir, mas sempre adiada. Na verdade, a análise da conjuntura econômica internacional não fornece subsídios para apostar em tal resultado. Isso faz a situação parecer uma busca dos líderes políticos e econômicos dos países desenvolvidos para melhorar as expectativas dos agentes privados, de modo que suas estimativas positivas se tornem profecias autorrealizáveis. O papel de propagar tal pensamento coube aos “profetas” de sempre: economistas conservadores de nações desenvolvidas comprometidos com o atual status quo da economia mundial.

Um exemplo veio do FMI, que, em seu World Economic Outlook, de abril de 2012, revia para cima suas previsões para o crescimento do PIB no ano, incluindo os EUA e diversos países da Zona do Euro, poucos dias antes de a divulgação dos dados do crescimento trimestral europeu mostrar que mais da metade dos países da Zona haviam entrado em recessão. Novamente, essa notícia trouxe pânico aos mercados financeiros e jogou por terra as expectativas de que a recuperação se daria ao longo do ano, intensificando-se no segundo semestre.

Segundo tal relatório, “[…] a economia mundial está gradualmente se fortificando, após os grandes percalços de 2011”. Os Estados Unidos dão sinais de uma recuperação mais acentuada, e a Europa está implantando “good politics”, para que venha recuperar a rota do crescimento.

Meses depois, em junho, a realidade é outra: os EUA sofreram arrefecimento de seu crescimento, a Europa segue em grave crise, e a desaceleração do produto global foi forte e sentida inclusive pelos países do grupo BRICs, que se destacam em termos de crescimento nos últimos anos, compensando, de certa forma, o mau desempenho das economias desenvolvidas.

Neste ano, não haverá uma retomada consistente da economia dos EUA. O País segue preso a um padrão de crescimento dependente do endividamento e da especulação, resultado das transformações estruturais sofridas desde a ascensão das políticas neoliberais na década de 80 e da financeirização de sua economia, que tiveram como consequência um forte aumento na desigualdade e na redução da parcela salarial da renda. Logo, o endividamento e os ganhos advindos de valorização patrimonial resultante das periódicas “bolhas de ativos” criadas sob tal padrão de crescimento foram a forma encontrada por parte das famílias para manter seus padrões de consumo. O estouro da “bolha” de 2007 trouxe uma brusca interrupção nesse padrão e deprimiu o consumo privado, desencadeando uma crise que atingiu o mundo todo. Coube ao Governo endividar-se e garantir que não ocorresse um total colapso da principal economia do planeta.

O Tesouro e o FED agiram prontamente, com diversas medidas de socorro ao setor privado, baseando-se, principalmente, em facilitações quantitativas, injeções diretas de recursos para a manutenção do valor patrimonial das empresas. Pelo lado destas últimas, houve uma retomada do fluxo financeiro, que voltou a se tornar positivo em 2010, o que não se refletiu em aumento significativo da demanda efetiva. Mantida a reversão da tendência de desvalorização do dólar, verificada nos últimos meses, deverá ser ainda mais prejudicada a recuperação de suas exportações, essenciais para a obtenção de um padrão de crescimento, como o verificado na década de 90. Sem alterações pró-salário na distribuição do produto que reativem o consumo, os EUA parecem estar fadados a uma década de crescimento do tipo “vôo de galinha”.

Na Europa, o quadro é ainda mais grave, com diversos países da Zona do Euro à beira de um colapso. As políticas aí implantadas como resposta à crise foram bastante conservadoras: austeridade, corte de gastos sociais e redução dos custos salariais, como forma de buscar um aumento da competitividade. Isso trouxe a intensificação da recessão e o aumento do desemprego em praticamente todo o Continente, trazendo à tona a possibilidade de que a Grécia e outros países periféricos na Zona venham a abandonar o bloco.

Certo mesmo é que a crise de 2007-08 não se encerrou, e parte dos motivos para a tímida recuperação está nas próprias políticas de salvamento, que, seguindo a crença ortodoxa, buscaram a solução para a queda na demanda através da utilização de mecanismos financeiros e monetários, em uma fase descendente do ciclo econômico. Porém, como os agentes privados estão em uma posição defensiva de consolidação patrimonial e desalavancagem, o estímulo fiscal direto por parte do Estado é a única forma consistente de recuperação. Sem uma mudança nessa postura, a crise pode tornar-se uma recessão de balanços, com estagnação que pode perdurar décadas.

Delirante ou não, certo é que a previsão sobre o fim do mundo, dado o seu pequeno grau de falseabilidade até o dia 21 de dezembro, irá perdurar por mais tempo do que a do fim da crise. Essa, sim, já desmoronou.

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