É importante conter a valorização do real

O Governo parece ter, finalmente, acordado para os perigos do câmbio valorizado. Depois da habitual tergiversação sobre as virtudes do câmbio flutuante e .livre., o Ministério da Fazenda concordou em instituir taxa, cobrando 2% de Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF) sobre o capital externo de portfolio entrante no País. Essa medida, apesar de sua pequena repercussão em termos práticos, em um momento de retorno do apetite pelo risco envolvendo uma imensa liquidez injetada pelos governos dos países desenvolvidos nos sistemas financeiros, para contra-arrestar os efeitos da crise do biênio anterior, vale pelo reconhecimento explícito de parte das autoridades de que o câmbio valorizado pode, sim, representar uma ameaça ao crescimento. Parece que, aos poucos, a política adotada com sucesso pelos países asiáticos de que .o câmbio flutuante é bom quando não flutua. começa a ecoar, de forma tímida, no Brasil.

E essa é uma excelente mudança de espírito. Defensores da valorização da moeda citam como argumentos em favor da valorização do real o controle dos preços a partir da pressão competitiva que as importações baratas impõem aos produtores domésticos e a possibilidade de ganhos de produtividade a partir da importação de bens de capital e de insumos em condições favoráveis. A inflação encontra- se controlada, em grande parte, pela modificação dos termos de intercâmbio em condições que favorecem a economia brasileira, pressionados pela excessiva capacidade industrial que se manifesta tanto nos países desenvolvidos quanto na Ásia. E, tendo em conta que a valorização do real, quando excessiva, prejudica a demanda pelosbens industriais domésticos, é difícil supor-se que esta seja boa para as decisões de investimento em um contexto de fraca demanda em nível mundial. É de se destacar que a volatilidade cambial prejudica sobremaneira a decisão de investir, e o Brasil tem sido um dos países com mudanças mais bruscas em seu nível cambial no último biênio, marcado por uma grande desvalorização de sua moeda no segundo semestre de 2008, seguida de forte revalorização do real a partir de março de 2009. Assim, embora um câmbio menos valorizado traga queda na renda real dos brasileiros relativamente ao exterior, ele significa um maior potencial de crescimento e de geração de empregos, o que justifica o empenho do Governo em controlar tanto a volatilidade quanto a valorização excessiva da moeda.

Entretanto é preciso destacar-se que a taxa de câmbio efetiva das exportações brasileiras, ponderada a partir da participação relativa de 15 países na pauta exportadora do País, tem mostrado valorização bastante inferior àquela apresentada pela taxa real/dólar. Isso se deve à forte desvalorização do dólar frente às demais moedas (o dólar perdeu 8% de seu valor nos últimos seis meses), ocasionada pela manutenção de baixíssimas taxas de juros nos Estados Unidos em consonância com as baixas perspectivas de crescimento naquele país, o que tem levado os aplicadores a buscarem maiores retornos em outros mercados, sejam estes de matérias-primas, como ilustra a recente alta do petróleo, sejam de países com maior perspectiva de retorno imediato. O sistema financeiro internacional encontra-se turbulento tanto no que tange ao papel dos países e das instituições como no que concerne à regulamentação dos mercados. Nesse ambiente em profunda mutação, é alvissareiro que o Governo brasileiro esteja se preocupando com o nível excessivo de valorização da moeda nacional. Espera-se que seja para valer.

É importante conter a valorização do real

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